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"Tens a ideia errada da relação - O problema das amizades"

13 de out.
6 min de leitura

Sempre me questionei sobre o que realmente procuramos nas amizades. Sobre o que era, afinal, um amigo. Se a amizade é algo tão importante para a nossa vida — o que se observa pelo facto de a maioria das pessoas ter grupos de amigos —, porque existe tanta inveja, egoísmo, jogos de poder e deslealdade dentro dos mesmos?


A minha infância não foi marcada por amizades, definitivamente. Mal conseguia socializar com os meus pares, quanto mais ter amigos. As amizades são, essencialmente, um sentimento de pertença. E os meus colegas garantiram que eu compreendesse que não pertencia ali. Sentia-me extremamente sozinho e isolado. As curtas ligações que fazia, o mais próximo de amizades que tive, rapidamente terminaram em deslealdade, mentiras e desprezo. Apenas aos 13 anos conheci uma rapariga que foi a primeira verdadeira amizade que tive. Acabou por se tornar numa paixão, mas não vem ao caso.


Na adolescência, a partir daí em diante, conheci centenas de pessoas e a algumas dezenas considerei amigos e amigas. Em qualquer lado parava e havia um amigo. Mas rapidamente percebi que somos todos muito amigos quando está tudo bem, quando podemos dar algo ou ser algo. No momento em que vamos abaixo, os amigos, nem vê-los.


E de dezenas de amigos, passei para 0, ou perto disso. O que me fez sentir uma solidão profunda e angustiante. O que mais confusão me fez foi o facto de eu me sentir tão apegado às pessoas, face ao que, aparentemente, as mesmas sentiam em relação a mim. O afastamento era indiferente para eles, mas para mim era um evento doloroso. Resultando, mais tarde, em nostalgia ou até mesmo saudades. Daí ter sido aquela pessoa que mandava mensagem passado meses ou até anos a dizer um mero «olá». Por vezes até verdadeiras declarações sobre o significado que a respetiva amizade teve na minha vida e a forma como via a pessoa.


Nessa altura, aos 15 anos, entrei numa nova turma. Lá conheci uma rapariga por quem me apaixonei pelos 4 anos que se sucederam. Por diversas circunstâncias, incluindo a pandemia, ela passou a ser a única pessoa com quem convivia. Estava apaixonado e a tentar intensamente racionalizar e controlar algo incontrolável: sentimentos.

Não sei se ela era minha amiga, paixão, colega, «namorada»... Seja o que for que fosse, foi o mais próximo que tive de uma amizade. Fez-me sentir, pela primeira vez, que alguém tinha parado dois segundos para olhar em frente, ver-me e querer tentar compreender o que sentia. Ela foi a primeira pessoa, até àquele momento, a dar-me uma prenda. A sensação de, no meio social fora de casa, alguém sentir-se apegado ao ponto de me querer oferecer algo era inconcebível.


Não vou dizer que não me sentia sozinho ao mesmo tempo, porém esta relação realmente deu sentido a essa sensação de solidão e fez-me sentir o outro lado da moeda.

A seguir a isso seguiram-se mais 3 anos entre um relacionamento e vários períodos pontuais de amizades.


Começa sempre com um acaso. Um encontro entre conhecidos de um conhecido. E nesses encontros alguém que trocava uma palavra, havia empatia e compaixão. Daí seguia-se o começo de uma amizade.


O problema começa exatamente aqui. Como eu não tenho muitos amigos e passei muitos períodos literalmente sem conviver com ninguém — apesar de poder até estar rodeado de pessoas —, fez com que, quando essas ligações surgiam, fossem o reflexo de um sentimento genuíno e forte. A forma como valorizava a relação e a pessoa — traduzindo-se em determinados gestos e comportamentos — claramente não era algo recíproco.

Não sou único ou especial. Porém, sinto as coisas com muita intensidade, revivendo-as constantemente durante muito tempo. Quando gosto de alguém, seja um amigo ou uma namorada, realmente gosto de o demonstrar. O tal clichê de fazer aos outros o que gostarias que te fizessem. Simples, sem segundas intenções. É claro: a forma como te trato é um reflexo das expectativas que tenho de ser tratado por ti.


Por diversas circunstâncias — talvez pelo facto de as duas amizades que tive, a começar pela primeira, terem acabado por se traduzir em paixões caóticas, imprevisíveis e ambivalentes, o que ditou um padrão —, fez com que a maioria das amizades que tive fossem com mulheres.

Algumas viraram pequenas paixões, outras genuíno desejo de amizade e compaixão. Mas foram mais as vezes em que confundiram a segunda com a primeira, no sentido em que o meu comportamento e gestos foram interpretados como interesse romântico/sexual. Ser mal interpretado pelas minhas intenções e sentimentos ou o «tens a ideia errada da relação» foram o pão nosso de cada dia. Ao mesmo tempo, voltei a compreender que só existe amizade enquanto estás bem e dás algo. No momento em que isso vira, ouves o «tens uma ideia errada da relação».


Deslealdade, mentiras, interesse — foram tudo sensações que senti.

Portanto, manteve-se a sensação de solidão.


As pessoas vão e voltam, mas no final do dia só podemos contar connosco, e por vezes nem isso. Gosto de pensar que sou o tipo de amigo em que podem pegar no telefone e em minutos estou lá para ajudar com seja o que for — o que só me trouxe sofrimento. Por vezes questiono-me até que ponto estou a tentar que a minha utilidade para os outros se traduza em amor e apreço. Triste, não é verdade?


Ser útil e merecer ser amado são coisas distintas. Sei que mereço ser amado. Sei os meus valores e intenções. Porém, no final do dia, foram mais as vezes em que me senti magoado e desiludido. Uma amizade terminar por as pessoas seguirem rumos distintos é algo normal e saudável. Uma amizade terminar abruptamente, ficando no vazio o que aconteceu, isso já é doloroso e até cobarde.


O problema está no facto de tal ter ocorrido dezenas de vezes. O que me leva a questionar se o problema são os outros ou se afinal sou eu. O nosso cérebro dá-nos estas partidas. Chamam-se vieses cognitivos. O clássico tudo ou nada. Preto ou branco. E o cinzento?

Somos seres sociais e precisamos de ligações. Senti-me sozinho a maioria da minha vida, mas, ao mesmo tempo, dou por mim mais vezes isolado do que acompanhado. Não procuro pessoas, mas sinto falta delas. Em grupos sinto superficialidade, falsidade e, por vezes, desprezo vindo de pessoas que, alegadamente, gostam de mim e afirmam ser meus amigos.

Não existe desespero, existe factualidade. E os factos são que precisamos de ligações com os outros humanos. E talvez o segredo esteja no facto de termos de aceitar o jogo como ele é.


Ouço constantemente a acusação de ser negativo, e de que tem tudo a ver com perspetivas. Não acredito nisso. A realidade é uma. Apenas tentamos encaixá-la na narrativa mais confortável face à nossa personalidade e circunstâncias. A natureza do ser humano é clara: egocentrismo puro. Temos uma missão: reproduzir, subir na escada hierárquica e obter o máximo de recursos possíveis — seja poder, bens, conforto ou segurança. E quem acrescenta, em determinado ponto da nossa vida, esses recursos, é nosso amigo ou parceiro romântico. Quando deixamos de ser úteis, ou quebramos e estamos numa fase mais complicada, já não somos necessários, amados ou sequer respeitados.


Nem todos viveram as mesmas experiências que eu. E, provavelmente, o leitor terá uma opinião muito diferente da minha. Provavelmente tem um grupo de amigos no qual se sente compreendido, amado e respeitado. Mas pare e pense: quem é o leitor nesse contexto? Com esse grupo? É você mesmo, ou apenas um reflexo de uma personalidade de grupo? Até que ponto a perda da sua individualidade justifica momentos fugazes de prazer e conforto?

O ciclo foi claro. Quando estava bem, era útil e tinha valor, era amado. Quando quebrava e demonstrava sofrimento, nesse momento «tinha a ideia errada da relação» ou até deixava de ser amado. Relações amorosas terminaram nesse momento. O que me faz questionar: será que valeu a pena?


Tudo na vida pode ser obtido por dinheiro. E o que não falta são pessoas desesperadas que pagam para ter amor. Não estou a falar de pagar por sexo, mas sim por amor. Estranho, não é verdade? A necessidade de nos sentirmos amados é tão grande que nos colocamos em posições tão humilhantes apenas para o sentir fugazmente.


Amizades são talvez das principais fontes de prazer que temos, mas, ao mesmo tempo, também a fonte de sofrimento. Mais vale só do que mal acompanhado, já dizia o ditado. Mas então porque não consigo ficar sozinho? Sinto-me em paz sozinho, faço as minhas coisas, os meus focos e hobbies. Mas, no final do dia, quando me deito, sinto nostalgia e saudades de pessoas a quem em tempos chamei amigo ou parceira.


Talvez o segredo esteja em aceitar o que não conseguimos mudar: nomeadamente essa necessidade de ligações.


Talvez um dia encontre alguém que me valorize, ou talvez um dia me comece a valorizar e a sentir em paz.


O que é um amigo? Um problema, dilema, alegria e dor. Talvez o meu verdadeiro amigo seja o que constrói os pensamentos que tenho dentro da minha cabeça. Ele não mente. Deixa-nos tentar enganarmo-nos a nós próprios, mas, no final do dia, sussurra-nos a verdade.

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