Mito do “Apenas Amigos” – A dinâmica oculta das amizades e os jogos de poder
- Miguel Silverio
- 9 de jul.
- 9 min de leitura
Dizemos que somos amigos, mas o que, afinal, isto significa? A amizade é enaltecida para uma ideia de inocência e pureza utópicas. Gostamos de imaginar a amizade como um espaço seguro, livre de pulsões ou desejos, jogos ou mentiras. A amizade é vista como um espaço altruísta, porém a verdade é que por detrás de cada amizade está uma dinâmica complexa de poder, ego, controlo e desejo. Não existe altruísmo, existe, sim, uma troca favorável para ambas as partes. A amizade é mais um contrato do que uma conexão espontânea.
A amizade, longe de ser o oposto do egoísmo, é a sua forma mais dissimulada e perigosa. Onde o afeto é um meio para dissimular um impulso claro e inconsciente de poder – Nietzsche. Não sou apenas eu que o acho, é desde a ciência até à filosofia.
A amizade entre sexos opostos é o cenário mais evidente desta dinâmica de poder implícita nas relações. Do ponto de vista biológico, o homem heterossexual é incapaz de dissociar a atração física da relação. Os mecanismos evolucionistas e biológicos dos homens não se regem pelas imposições socioculturais.
O homem até pode fingir ou acreditar que a atração física é apenas um pormenor no seu desejo na amizade, no entanto, é esta que rege todas as ações do mesmo. Inconscientemente, ou não, o homem mascara-se na ideia de “confidente” para se infiltrar e quebrar gradualmente as barreiras emocionais da mulher. Sendo o apoio incondicional, a escuta ativa e até o cavalheirismo estratégias usadas e impulsionadas pelo desejo. Não existe puro altruísmo nesta dinâmica, existe, sim, um desejo que impulsiona ações para criar uma fenda emocional e/ou sexual. Em uma palavra, a dinâmica do homem é a abertura potenciada – comportamentos em prol da criação do desejo emocional e sexual da amiga.
A mulher, consciente deste fenómeno, enquanto ser mais sensível, por razões culturais e talvez por certos fatores biológicos, deteta a tensão latente – por vezes até antes de o homem ter consciência –, mas escolhe tolerar e alimentar a relação porque a assimetria lhe confere uma imensa sensação de poder psicológico. Ao ditar e deslocar os limites ("somos quase irmãos", "és o meu melhor amigo"), ela mantém o homem num estado de órbita e submissão, consumindo a atenção e a validação do seu ego sem ter de pagar o custo do investimento romântico e sexual. A mulher também usa a relação como backup face aos seus restantes investimentos emocionais e sexuais – normalmente recorrendo ao tal amigo quando precisa de segurança e conforto emocional. A dinâmica da mulher é assumidamente pautada pela dinâmica da fronteira, ela tem o poder, pois ela controla se cede ou não ao desejo do homem – podendo alimentar subliminarmente o mesmo para preservar e alimentar o interesse deste. No fundo, o homem fica submisso a uma dinâmica devido à ilusão de uma reciprocidade que apenas é arquitetada.
Opinião controversa ou irrealista? Então vamos aos factos. Um dos estudos mais importantes e relevantes sobre este tema é o de Bleske-Rechek, A., Somers, E., Micke, A., Erickson, L., Matteson, L., Stocco, C., Schumacher, B., & Keegan, L. (2012). Benefit or burden? Attraction in cross-sex friendship. Journal of Social and Personal Relationships, 29(5), 569–596. Este estudo avaliou casais de amigos em ambiente laboratorial, garantindo anonimato absoluto para que as respostas não fossem filtradas pelo medo de estragar a amizade. Concluiu-se que os homens sentem muito mais atração pelas amigas do que o oposto. Mais do que isso: os homens assumem cegamente que a atração que sentem é mútua. O estudo prova que os homens veem a atração como um "benefício" e estão dispostos a agir se a oportunidade surgir. Já as mulheres veem a atração dos amigos como um "fardo" e assumem que a falta de interesse sexual é o estado natural da relação. Elas mantêm-se na amizade pela validação e proximidade, subestimando deliberadamente o interesse do homem.
Por outras palavras, o homem tende a manter-se na relação por uma ilusão de reciprocidade, e a mulher por uma desvalorização da atração sexual do homem e pela validação e controlo de que beneficia.
Quando este tipo de opiniões são defendidas em praça pública, tendem a associar as mesmas a um ressabiamento do homem devido às relações de amizade que tiveram onde se sentiram usados ou mantidos na tal “friendzone”. Trazendo para a luz da minha experiência, a minha realidade foi bastante distinta dessa assunção clássica.
A relação que tive com a minha colega de turma ao longo do secundário foi um reflexo intrínseco desta dinâmica apresentada. No entanto, a mesma não era inconsciente para nenhum dos lados. Ambos éramos pessoas inteligentes e aceitámos a natureza da amizade. Eu tinha uma clara atração sexual por ela, tendo mais tarde desenvolvido intensos sentimentos românticos pela mesma. Ela sentia-se segura, validada e reconfortada com a minha presença. Retirava uma enorme satisfação, talvez até sádica, da sensação de poder e controlo que tinha sobre mim. Quando estava distante dela, seja por algo que não gostei que ela fizesse, ou apenas porque ela se afastou, ela sabia sempre o que dizer e o que fazer para ter a minha atenção e exclusividade de volta. O fator possessividade entra em jogo quando o parceiro masculino é envolvido por uma teia por parte da parceira de compromisso implícito. A amiga não chega e diz – "quero que sejas só meu". Porém, existe todo um conjunto de estratégias subliminares para o fazer. Comigo ela reprovava qualquer atenção feminina que recebia – através ou de distanciamento ou de uma súbita frieza ou desprezo. Quando essa atenção feminina cessava, ou por desinvestimento meu, ou da mulher em questão, ela “recompensava-me” através de ternura e proximidade. O que causava uma associação entre ser-lhe exclusivo e ela dar-me o que ela sabia que eu queria. Por vezes existia, inclusivamente, a sedução sexual, mais ou menos explícita, para alimentar a ilusão de reciprocidade, tanto em termos sexuais como românticos. Esta relação foi um exemplo extremo e completo da dinâmica de amizade entre sexos opostos. Tive, no entanto, relações ditas de amizade, onde estas dinâmicas eram mais subtis ou pontuais – o clássico "somos só amigos", porém, ao dar mais atenção ou tratar melhor uma mulher onde estava a investir romanticamente e/ou sexualmente, a súbita agressividade ou frieza eram nítidas.
Em relação às amizades entre homens – um ponto muito sensível para estes –, existe um desejo homossexual deslocado e inconsciente. Sigmund Freud defendia que os laços sociais profundos, a camaradagem e a solidariedade de grupo entre indivíduos do mesmo sexo não são desprovidos de energia sexual. Eles são sustentados por uma libido homossexual/bissexual inconsciente que foi reprimida e desviada do seu objetivo sexual original. No fundo, não significa, na prática, que todas as amizades entre homens têm por detrás um desejo sexual, ou até, que os homens seriam todos homossexuais. Significa, sim, que parte do desejo sexual primitivo pela mulher é deslocado para o mesmo sexo, motivando o desejo pela relação. Ou seja, a relação entre homens visa preencher alguns aspetos das relações entre homem e mulher.
Existe o clássico cliché de que os homens muito machos escondem por detrás uma homossexualidade reprimida. O medo primitivo da homossexualidade por parte desses homens (frequentemente projetado em homofobia social) força os homens a expressar essa atração oculta através de rituais simbólicos de poder: a competição física, o insulto amigável, o partilhar de conquistas sobre mulheres (onde a mulher atua como um mero mediador do desejo entre os dois homens) e a fixação em hierarquias. O homem valida o seu valor no olhar do outro homem. A atração é expressada na adoração mútua.
Era muito cético a este fenómeno, até sensivelmente aos meus 12 anos. Pode-se dizer que as crianças não sabem o que fazem, porém, a verdade é que o seu comportamento é um reflexo mais próximo dos nossos impulsos primitivos, devido ao ainda subdesenvolvimento do neocórtex. Eram frequentes as histórias de rituais de masturbação entre homens nas equipas de futebol. Entre as brincadeiras sexuais, até às rodas onde se masturbavam individualmente, mas em grupo. Tudo isso chegava-me aos ouvidos, mas sem ver, não poderia saber se era verdade ou não. No entanto, comecei a observar que, após os treinos de Educação Física, alguns rapazes ficavam mais tempo no balneário. Nunca entendi porquê – pois saía de lá muito antes –, porém, houve um dia em que fui mudar de roupa mais tarde. O que encontrei foi exatamente isso, uma roda de rapazes a masturbarem-se individualmente. Observar tais situações e o subsequente desconforto despoletado apenas reforçou a minha heterossexualidade e, ao mesmo tempo, cessou qualquer curiosidade ou dúvidas que uma criança possa ter.
Percebo o que o leitor possa estar a pensar – eram apenas miúdos de 12 anos. Bem, então viajemos no tempo e vamos para Praga – onde já tinham 18 anos. Fomos para Praga como viagem de finalistas. Estudei naquele colégio durante 12 anos. Conhecia todas as pessoas que lá frequentavam do meu ano. No avião de ida para Praga, um rapaz interpelou-me para perguntar quem ia ter relações sexuais, chegando a perguntar se iria “furar” a rapariga que se encontrava ao meu lado. Chocante? Continuemos. Este era um rapaz dos ditos machos, que repudiavam a homossexualidade, porém tinha uma relação de grupo muito íntima. Uma certa noite, estava a ir a pé para uma discoteca e no caminho encontrei-me com o tal rapaz, que estava com uma rapariga que estaria a tentar seduzir. Estávamos todos embriagados, porém o rapaz estava claramente. Ele, de forma inocente e espontânea, começou a perguntar se era normal dar beijos na boca do melhor amigo – outro dito machão –, ao que respondi naturalmente que sim. Cada pessoa é como cada qual – já dizia o outro. Antes de sequer responder, ele reforçava que gostava de mulheres. Após a minha resposta, ele perguntou-me se era normal amar o melhor amigo – como “amigo” – e gostar de o ver a tomar banho. O que mais uma vez reforçou que gostava de mulheres, ao que respondi que era natural e saudável. De notar a cara de estupefação da rapariga ao seu lado. Dois dias a seguir ao sucedido, já sóbrios num autocarro, reparei que este rapaz teve o impulso para chamar a atenção do tal amigo de pousar a mão na perna do mesmo. O que já não foi assim tão impulsivo foi ele ter deixado lá a mão.
(Fontes: Sigmund Freud, Totem e Tabu (1913) e Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921))
As relações entre mulheres são pautadas por dois mecanismos centrais. A hiper-empatia pela amiga e, ao mesmo tempo, a competição intra-sexual (mecanismo evolutivo onde indivíduos do mesmo sexo competem entre si pelo acesso a parceiros reprodutivos). Nas amizades entre as mulheres, ao contrário das dos homens que são mais centradas em fazer atividades, as das mulheres centram-se na partilha íntima do que sentem. Existe, no entanto, a utilização da amiga como forma de validação do ego. As mulheres comparam-se umas com as outras para validarem o seu valor. A empatia vem de uma integração do sofrimento de uma na outra, formando um escudo contra o mundo – seja pela repressão sexista, ou pelo escrutínio masculino, entre outros.
No entanto, do ponto de vista da evolução da nossa espécie, as mulheres estão programadas a competir entre si pelo melhor parceiro reprodutivo e status social (o que garantia maiores recursos num meio em que estes são limitados). Ao contrário da competição masculina que tende a ser física, a da mulher raramente o é; pelo contrário, é extremamente velada e subliminar. Manifesta-se através da exclusão passivo-agressiva, do policiamento subtil da reputação da outra (o mexerico como arma de desvalorização do status da rival) e da comparação obsessiva de beleza, parceiros ou sucesso. Uma mulher quer que a amiga esteja bem, mas raramente melhor que ela. Existe um jogo mimético implícito entre amigas, o que gera um tremendo conflito.
Sendo que a minha opinião pessoal vai ao encontro do que foi dito e a minha experiência vem da observação fria e imparcial das dinâmicas relacionais entre mulheres que tenho vindo a conhecer, ou seja, como não sou mulher, vou-me abster de comentários sobre a minha experiência, as tais observações e análises, e manter apenas os factos neste texto.
(Fonte de Psicologia Evolutiva: Benenson, J. F., et al. (2014). Abrasive female bonds: Comparison of women’s and men’s same-sex aggression. Philosophical Transactions of the Royal Society B. Este estudo demonstra que as mulheres utilizam estratégias de exclusão social e agressão indireta de forma muito mais intensa que os homens para gerir hierarquias nas suas amizades).
Tudo isto não desencoraja nem rejeita a importância que as amizades podem ter na nossa vida. Temos, no entanto, de compreender o que está por detrás daquilo que realmente sentimos, e sermos transparentes e honestos. A amizade como ideia de altruísmo é uma pura ficção socialmente conveniente. Quer seja o homem que molda ações para cavar uma oportunidade sexual, a mulher que retém o limite para exercer controlo e extrair validação, o homem que sublima a sua bissexualidade inconsciente na validação dos seus pares, ou as mulheres que oscilam entre a simbiose afetiva e a destruição passiva da rival — a amizade é a máscara de egoísmo mais sofisticada da nossa civilização.
Aceitar isto não nos deve tornar cínicos isolados, mas sim indivíduos lúcidos. A verdadeira maturidade não reside na crença numa inocência impossível, mas na capacidade de olhar o outro nos olhos sabendo exatamente qual é o preço e a moeda de troca do contrato que assinámos em segredo ao entrar numa amizade.
Uma amizade, diria especialmente entre sexos opostos, requer respeito e lealdade. Homens e mulheres podem ser amigos? Completamente. Têm, no entanto, de ser honestos e transparentes, e, por sua vez, juntos delinear limites claros para a amizade. Uma amizade madura e saudável é aquela em que as partes reconhecem o que querem, o que estão a receber e o que estão a dar.



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