top of page

Quem Ama Também Trai? – Como compreender o Incompreensível e como um rato é estatisticamente mais fiel que o teu parceiro

Ser traído é uma sensação desagradável na medida em que nos faz colocar em causa quem somos e o que até à data vivemos. Tentamos acreditar que, se fomos traídos, então não fomos amados. Os momentos belos e intensos que vivemos com o parceiro foram, então, uma ilusão. Colocamos em causa a nossa identidade. Sentimos culpa de “não ter visto”. As pessoas que nos rodeiam disparam o clássico “eu avisei-te”.


A infeliz verdade é que a traição não apaga o que vivemos. Não apaga quem somos. Não implica que não fomos amados. E muito menos reduz o nosso valor enquanto pessoas. Ultrapassar uma traição implica compreendê-la. E para compreender uma traição temos de separar a intensa dor vivida no momento, temos que nos distanciar da nossa traição vivida, compreender o contexto e o enquadramento das traições, e só depois analisar o nosso caso concreto. A traição, como qualquer trauma vivido, deve ser compreendida e integrada na nossa história de vida.


O leitor está preparado para compreender o incompreensível? Se sim, respire fundo, e vamos lá.


A invenção do casamento e da monogamia – as estatísticas da traição e o rato fiel


Como mencionado em artigos anteriores, historicamente o casamento foi uma construção arbitrária pelo Homem, há muito pouco tempo. O casamento tinha um propósito socioeconómico – garantir a linhagem e a herança. A fidelidade servia para o homem ter a certeza de que o filho era dele, e, por consequência, que era o seu sangue a herdar a sua fortuna.


Atualmente, o casamento moderno exige que o nosso parceiro seja a nossa alma gémea. Esperamos que o nosso parceiro seja o nosso porto seguro, melhor amigo, amante apaixonado, confidente emocional e co-progenitor — tudo numa só pessoa. Como não é espanto para ninguém, estudos globais demonstram consistentemente que cerca de 20% a 25% dos homens e 10% a 15% das mulheres casadas admitem já ter cometido infidelidade em algum momento da relação. Porém, nos jovens adultos (18 a 29 anos), as mulheres traem ligeiramente mais: 11% face aos 10% dos homens.


Outro dado que também não surpreende ninguém é o facto de que a traição raramente é um caso isolado e acidental. Quem já traiu previamente num relacionamento tem uma probabilidade de o voltar a fazer 3 vezes superior à de quem nunca traiu. Existem, no entanto, diferenças culturais e de género – quando ficamos com receio de estar com alguém que já traiu no passado, pelo medo de nos trair no presente, a estatística valida o nosso receio. De notar que 45% dos infiéis admitem repeti-lo.


Por fim, os homens traem mais parceiras (cerca de 65% dos homens infiéis e 32% das mulheres infiéis chegam a acumular 5 ou mais casos extraconjugais ao longo da vida). Em suma, os homens traem mais parceiras, e as mulheres traem mais vezes o mesmo parceiro.

A grande ironia, no entanto, como a autora Esther Perel defende no seu livro “(In)fidelidade – Repensar o amor e as relações”, é que no pico do liberalismo, onde é mais fácil e socialmente aceite divorciar, as pessoas continuam a preferir trair em segredo a divorciar-se – porque o objetivo não é deixar o parceiro, mas sim reencontrar-se. O casamento moderno exige que uma única pessoa seja o nosso porto seguro e o nosso maior foco de adrenalina erótica. É exigir paradoxalmente estabilidade e novidade ao mesmo tempo.


Do ponto de vista antropológico (evolução das espécies), a monogamia estrita nunca foi a norma biológica da nossa espécie, mas sim uma imposição socioeconómica. Estudos estimam que apenas 3% a 5% dos mamíferos são monogâmicos, e os humanos não pertencem biologicamente a este grupo restrito de forma natural. A fidelidade é uma escolha consciente (cultura) e não um instinto (biologia).


Curiosidade: o Rato-do-campo-da-Califórnia (Peromyscus californicus) é considerado o mamífero mais estritamente monogâmico do mundo, atingindo 100% de fidelidade reprodutiva em testes de DNA. Os casais permanecem juntos por toda a vida, dividem o ninho e cuidam obsessivamente dos filhotes. Logo, um rato consegue ser mais fiel do que grande parte dos humanos ditos “racionais”.


Compreender a Traição


Trair assenta essencialmente nos mecanismos dopaminérgicos do cérebro. O processo de traição é quimicamente intenso para o sujeito que trai. A dopamina é um neurotransmissor ligado à motivação, à busca da novidade e ao sistema de recompensa. Por outras palavras, quem trai está quimicamente motivado pela busca do parceiro novo e tem recompensa e prazer químico no processo. Sendo que o perigo e o segredo triplicam a produção de dopamina, fazendo de trair um comportamento viciante e prazeroso.


Já do lado de quem é traído, estudos através de ressonância magnética demonstram que a rejection e a quebra de confiança ativam a mesma área cerebral da dor física – logo, ser traído magoa, e magoa mesmo.


Por fim, a psicologia evolucionista explica que os homens e as mulheres traem por pressões inconscientes distintas. A hipótese do investimento parental, introduzida em 1972 por Robert Trivers – biólogo evolucionista –, tem como princípio básico o custo da reprodução. A teoria defende que o sexo que investe mais recursos, tempo e energia na produção e criação de um descendente – a mulher – será muito mais seletivo na escolha do parceiro. Por outro lado, o sexo que investe menos recursos – o homem – competirá entre si para ter acesso ao sexo que investe mais.


A mulher tem uma limitação biológica: produz um número limitado de óvulos ao longo da sua vida fértil – cerca de um por mês. Ao engravidar, o custo biológico é elevadíssimo. São 9 meses de gestação, onde existem todos os riscos inerentes à gestação e ao parto. Por fim, meses ou anos de cuidados ao bebé que dependem dos mesmos para ouvir e sobreviver. Logo, escolher o parceiro errado geneticamente, ou que abandone a cria e não providencie proteção e segurança à mulher, pode implicar o fim da linhagem da mulher ou um custo de sobrevivência altíssimo.


Por contraste, o homem produz milhares de espermatozoides por dia, e ao longo de toda a sua vida, sendo que cada espermatozoide tem a capacidade de engravidar. Se engravidar uma mulher, o custo biológico e anatómico implica um investimento mínimo, bastando um ato sexual para perpetuar o seu código genético. Sendo que o homem tem um risco praticamente nulo em termos da sua sobrevivência.


Como esta teoria explica a traição?


Para o homem ancestral, a traição era uma estratégia de maximização reprodutiva. Uma vez que o seu investimento parental mínimo era baixo, envolver-se com várias parceiras em segredo permitia-lhe espalhar o seu código genético sem o custo de ter de sustentar todas as crias. É por isso que, estatisticamente, a traição masculina tende a ser mais motivada pela procura de variedade sexual e novidade física, com menor exigência de ligação emocional.

Para a mulher ancestral, trair era uma estratégia muito mais perigosa (se o parceiro principal a abandonasse, ela perdia a proteção e o sustento para os filhos). Portanto, a traição feminina tinha de compensar o risco. Ocorria geralmente por duas razões. Para encontrar bons genes: o parceiro atual podia ser um excelente provedor (bom pai, estável), mas ter um sistema imunitário fraco ou genes menos robustos. A mulher procurava secretamente a genética de um homem "alfa" para a gestação, enquanto mantinha o investimento e a proteção do parceiro seguro para a criação – o que explica em parte porque as mulheres, ao traírem, tendem a manter o traidor e o traído em simultâneo. Por fim, por uma questão de recursos: se o parceiro atual falhasse em garantir recursos, a infidelidade servia como uma transição para avaliar e garantir o investimento de um homem com maior estatuto ou capacidade de proteção. É por isso que a traição feminina está, frequentemente, muito mais associada a um envolvimento emocional prévio do que a masculina.


Em suma, o homem trai por um impulso sexual, e a mulher por impulso emocional. Tal verdade biológica leva a alguns discursos sexistas e bárbaros, dispersos na internet atualmente, em que a mulher tem a obrigação sexual de satisfazer o homem. O que podemos extrair deste facto é que a qualidade e a frequência do sexo são fundamentais para o bem-estar de uma relação para o homem. E para a mulher, a segurança, o conforto e a presença são predominantemente fundamentais para o bem-estar da relação. E vice-versa, naturalmente; porém, não podemos retirar que existem variáveis com um maior peso para cada sexo.


Outros dados relevantes:


Existem pessoas geneticamente mais propensas a trair. Cientistas da Universidade de Binghamton descobriram que pessoas com uma variante específica do gene recetor de dopamina DRD4 (associado à procura de sensações fortes) têm duas vezes mais probabilidade de serem infiéis. Sendo que esta variação tem uma prevalência na população entre 10% a 20%.


De acordo com os dados clínicos de Perel, mais de 70% das pessoas que traem afirmam que ainda amam os seus parceiros e classificam o seu casamento como "bom" ou "muito bom". A traição, portanto, é uma crise de identidade, não de amor.


Estudos de psicologia apontam que a micro-traição (gostos em fotos antigas, mensagens privadas ocultas, conversas emocionais diárias com terceiros) ativa os mesmos centros de ansiedade e apego no parceiro que uma traição física, provando que o segredo é mais corrosivo que o toque.


Compreender a Lealdade


Sendo a traição algo tão prevalente e com tantas bases científicas, biológicas, evolucionais, históricas e culturais para o explicar e sustentar, será que a lealdade ainda tem espaço para sobreviver?


Do ponto vista neuroquímico, a traição, como apresentado, é sustentada pela dopamina. Já a lealdade é sustentada pela oxitocina (a hormona do apego e da confiança) e pela vasopressina (associada à monogamia social e proteção).


Num estudo clássico da neurobiologia da fidelidade, os cientistas compararam duas espécies de ratos geneticamente quase idênticas: os voles do campo (monogâmicos para a vida) e os voles do prado (promíscuos). Descobriu-se que os monogâmicos têm uma densidade massivamente maior de recetores de oxitocina e vasopressina nos centros de recompensa do cérebro. Quando os cientistas bloquearam estes recetores, os ratos fiéis tornaram-se instantaneamente promíscuos.


No estudo de René Hurlemann, em 2012, os investigadores administraram oxitocina sintética a homens comprometidos através de um spray nasal. Quando colocados perante mulheres desconhecidas e atraentes, os homens sob o efeito da oxitocina mantiveram voluntariamente uma distância física maior e ativaram menos os centros de recompensa do cérebro ao olhar para elas, comparativamente aos homens solteiros. Em suma, a oxitocina diminui o interesse por terceiros e torna o parceiro atual biologicamente mais valioso.


Do ponto de vista da psicologia social, Caryl Rusbult desenvolveu uma teoria que explica que a lealdade não depende apenas do amor, mas sim de três fatores: a lealdade é igual à soma da satisfação na relação e da dimensão do investimento afetivo (tudo o que se construiu enquanto casal: tempo, memórias, finanças, filhos, estatuto social, etc.), subtraindo a qualidade das alternativas. Segundo Rusbult, as pessoas permanecem leais mesmo quando a satisfação na relação é temporariamente baixa, desde que o investimento acumulado seja alto e as alternativas externas pareçam fracas ou vazias. A lealdade é, portanto, uma decisão racional de proteção de património emocional e material.


A Teoria da Vinculação em Adultos, nascida dos estudos de John Bowlby e adaptada para adultos por Hazan e Shaver, demonstra que a nossa capacidade de ser fiel está diretamente ligada à segurança do nosso desenvolvimento emocional. Indivíduos que cresceram com bases emocionais estáveis desenvolvem uma vinculação segura na idade adulta. Para estas pessoas, a intimidade emocional e a vulnerabilidade partilhada com um único parceiro são fontes de segurança profunda. A ciência demonstra que pessoas com um estilo de vinculação seguro têm uma tolerância muito maior à rotina e interpretam a estabilidade não como tédio, mas como paz e sobrevivência. A lealdade, neste contexto, é uma estratégia de autorregulação emocional. Quem é leal prefere o porto seguro do compromisso ao caos da busca de terceiros.


Relato biográfico – o meu caso clínico


A primeira vez que me senti traído foi na minha segunda relação. Começou quando tínhamos 16 anos. Nós não tínhamos um compromisso contratual entre nós os dois – ou seja, não estávamos a namorar. Porém, havia uma dinâmica de possessividade e passividade unilateral. Ela mantinha a posse, exercia controlo com estratégias emocionais para reter a minha atenção e exclusividade – eu servi como o porto seguro dela. Era a base emocional dela, a garantia de que, quando as coisas corriam mal fora da nossa dinâmica, ela poderia sempre ter-me para a reconfortar. Porém, não era quem a excitava, provavelmente em todos os sentidos da palavra. O meu comportamento era previsível, as minhas reações também, a lealdade, dedicação e compromisso. Tudo isso trazia-lhe conforto e segurança – porém, era monótono.


Ela sentia-se segura em ser vulnerável, porém não tinha espaço para não o ser – ela sentia que não me conseguia esconder o que sentia – para o que eu contribuí em muito para essa sensação. Quis fazê-la sentir-se vista, quis que ela sentisse que os seus sentimentos eram válidos. Porém, surgiu o conflito entre a segurança e a sensação de descontrolo. Ela sabia que tinha controlo, mas, ao mesmo tempo, tinha medo de não o ter – ao ser vista e compreendida. Daí os constantes afastamentos, silêncios e desprezo. Esse conflito, juntamente com a previsibilidade, fazia com que a excitação fosse nula, o mistério, a necessidade de conquistar, ser desejada, mas de forma imprevisível. Sabia demasiado de quem ela era no íntimo para ser possível a criação de jogos de sedução e a atuação – tudo mecanismos, até em certa medida, saudáveis.


Ela exigia e controlava a minha exclusividade e devoção perante ela. Já eu, por contraste, pedia a sua exclusividade e aceitava passivamente quando ela não o era. Portanto, quando estávamos numa viagem, entre muitas dezenas de colegas, quando a vi numa discoteca a envolver-se com um rapaz, senti-me traído. Não foi algo que não esperasse – o que apenas me fez sentir estúpido –, porém pus naturalmente em causa tudo o que tinha vivido e sentido com ela até aquele momento. O meu conflito era entre a prevenção de que existia reciprocidade do lado dela, com a possibilidade de se tratar apenas de posse. Onde todos os toques, insinuações, provocações, discursos onde me retratava como alguém único e especial na sua vida eram apenas um jogo de forma a manter-me na sua posse, ou eram sentimentos reais. A grande amargura que adveio com esta sensação de traição foi a de que, no fundo, as duas interpretações da realidade plausíveis coexistiram na mesma realidade.


A traição propriamente dita, onde existiu uma relação contratual, relações sexuais regulares, desejos, sonhos, idealizações partilhadas de uma vida em conjunto, construção de uma família, entre outros muitos aspetos naturais de uma relação “normal”, foi quando já era mais velho. Quando passamos por uma relação marcante, um luto pós-relação caótico e traumático, ao entrar noutro relacionamento tal é feito depois de superarmos o desgosto, aprendermos com os erros e com as falhas. Amar novamente implica colocarmo-nos novamente numa posição vulnerável, arriscarmos a nossa saúde mental através de uma entrega total. E o mesmo só é possível porque vimos algo de diferente no parceiro que está diante de nós.


Portanto, tive uma entrega total a ela e à relação. Sensivelmente, metade da relação foi maravilhosa, dentro das expectativas realistas e saudáveis que acredito ter tido. Porém, por diversas circunstâncias, ela começou a adoecer. As múltiplas traições, com mais do que um terceiro, surgiram no pior estado da sua doença. Talvez seguindo o mesmo padrão de passividade anterior, perdoei as primeiras traições. Em grande parte, devido à sua doença. E ao contrário da traição vivenciada na relação anterior, nesta eu não senti que eu fosse o problema. Não senti que aquele ato pusesse em causa o amor que senti ao longo dos meses, e muito menos o meu valor próprio. Agora, se me magoou? Tremendamente.

Num contexto onde, naturalmente por ser parceiro dela, e em princípio o homem para o resto da sua vida – pelo menos, essa era a ideia –, fui um grande suporte na procura da cura e de tratamento para a sua doença. Ser traído no meio deste cenário foi indescritível. Porém, não sei bem como, perdoei e segui em frente. Quem é que não perdoou? Ela não perdoou o facto de eu ter perdoado. E a falta de compreensão sobre o porquê de ter perdoado apenas alimentou uma paranoia do lado dela em relação à minha fidelidade – o que é irónico, não é verdade? Não demorou muito a voltar a sabotar-se a si e à relação. Sendo que o primeiro término da mesma fez-se quando descobri a segunda traição com outro terceiro.


Perdoar a traição não implica aceitá-la. Após a traição existe uma quebra total de confiança. Se eu confiava nela? Claro, mas não no que ela dizia, mas sim em quem ela era. Estar com alguém implica reconhecer quem amamos, tanto os seus defeitos como qualidades. Uma pessoa que tem sofrimento prolongado, não resolvido ao longo do seu crescimento, inevitavelmente vai projetar o mesmo para as suas relações. Por vezes, nem é preciso existir um histórico prévio, basta uma fase traumática na vida de alguém para ser projetada nos outros e com ela todos os mecanismos de coping não saudáveis do sofrimento. Por vezes, a melhor forma de conhecermos alguém é no caos, nos problemas e no sofrimento. Despido de barreiras e máscaras, vemos a verdadeira faceta dos outros.


Ultrapassar a traição


Ultrapassar uma traição implica saber viver com ela. Como referi no início, ao compreender o contexto das traições no geral, tal como temos vindo a elaborar, podemos partir para o contexto da nossa traição. Pessoalmente, ultrapassei as traições que vivi ao compreender que é um fenómeno primitivo que remonta à nossa evolução enquanto espécie. Ou seja, não é algo pessoal, específico do meu contexto, personalidade e relação.


Por outro lado, trair – ao contrário do que defendem alguns autores – diz alguma coisa sobre o caráter do outro. Trair é fácil, impulsivo e primitivo. Já ser leal é algo que proveio da nossa evolução. É algo racional, implicando persistência, resiliência, esforço e tempo. Trair basta um instante. Já a lealdade constrói-se. E se o outro escolhe destruir algo tão belo e admirável que é uma relação leal – é um reflexo de um conjunto de mecanismos emocionais frágeis do mesmo. Entre a baixa autoestima, falta de empatia e imaturidade, é algo desnecessário numa altura onde terminar uma relação é tão fácil e socialmente aceitável.


Se um animal, dito irracional, como a espécie de rato mencionada, é leal, como uma pessoa, seja homem ou mulher, considerado um animal racional, trai com tanta facilidade? Acho que a conclusão a retirar seria que ser traído diz mais de quem traiu do que de quem foi traído.


Por fim, gostava de reforçar que ultrapassar o rancor inevitável ligado a uma traição implica aceitar que não se trata de ti, trata-se do sofrimento interno que o teu parceiro está a viver. E tal não implica justificar a traição, aceitá-la e muito menos curar ou resolver o sofrimento do outro. Tal implica retirar a carga emocional de algo que não foi para nós. Foi um ato egocêntrico do outro – a traição em segredo está ligada, de certa forma, a um medo crónico de abandono por parte do traidor; caso contrário, acabava a relação e iria à sua vida. Mas não: precisa da adrenalina do proibido, mas da segurança do conforto.


O mito das estratégias para evitar a traição


Compreender o passado do potencial parceiro, a dinâmica familiar vivida na infância e na atualidade, os padrões comportamentais face ao sofrimento, o nível de impulsividade e a procura constante de algo mais excitante (seja bens materiais, desportos ou perigos no geral), a sua inteligência emocional, ou falta dela – isto é, a capacidade de gerir e regular as suas emoções e respostas comportamentais face à adversidade –, entre outras centenas de fatores que efetivamente têm uma base estatística e científica para reduzir a probabilidade de ocorrer uma traição, são formas efectivas de mitigar a probabilidade de ocorrer infidelidade. Talvez sejam todos fatores importantes de ter em consideração nas fases iniciais das relações, onde estamos mais emocionais e excitados com a novidade e ligados às projeções de um ideal no parceiro novo, onde uma análise mais fria e racional seja importante. Mas até que ponto entrar numa relação com o medo de ser traído não irá influenciar comportamentos menos saudáveis por parte do parceiro receoso? Os tais comportamentos de investigação exaustiva de onde, como e com quem está o parceiro, até à justificação de mexer constantemente no telefone do mesmo. Controlar horários, redes sociais e até o grupo social do mesmo.


Acredito que sim, a traição pode ser mitigada, mas não pode ser evitada. Estar numa relação implica estarmos expostos a ser feridos. Uma pessoa que ama profundamente o outro não se coloca em situações onde a traição tem espaço para existir. E se, por alguma circunstância, está numa situação dessas, ausenta-se. Mas tal não pode ser uma obrigação, mas sim um comportamento natural do casal de forma a respeitar e ser respeitado.


A melhor forma de não trair é não começar a trair. Da mesma forma que, se sabemos que um cigarro vicia, porquê experimentar? Porque pôr-nos num ambiente que o incentive? Para quê o risco de ficar viciado? Porque uma vez que um comportamento aditivo começa – e a traição é altamente viciante, como abordado – dificilmente não será repetido.


Comentários


bottom of page