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“Não vivo sem ti!”: declaração de amor ou sinal de alerta?

A cultura ocidental deu-nos a crer que o amor verdadeiro é aquele que dói, que tira o sono e que consome. Mas a verdade é que existe uma linha muito fina — e perigosa — que separa o amor saudável do obsessivo.


Ao longo dos anos, apesar de curtos, tenho-me vindo a questionar sobre esta linha ténue entre o amor e a obsessão. Entre depender e precisar. Do simples, mas poderoso, acrescentar.


Quantas vezes nos vemos avassalados numa montanha-russa constante de sentimentos causados por uma relação, por uma pessoa ou por ambos? Fixos em pensamentos incessantes sobre quem nutrimos esse sentimento, esse foco, essa paixão ou, talvez, obsessão? Temos filmes populares a retratar o rapto como paixão, amor e felicidade. A violência, a toxicidade e a perseguição como provas de amor.


Fica então a eterna questão: o que é amar? E, a seguir a essa, surge a seguinte, talvez ainda mais complexa: o que é o amor saudável? O que separa o controlar do proteger? O amar do depender?


Nos últimos dois anos, tive uma relação com uma mulher que me fez pôr em causa todos os dogmas que tinha sobre o amor. Foi uma relação marcada por uma constante guerra entre o amor e o ódio. Guerras e confrontos que desaguavam em provações e gestos exorbitantes de afeto. Ambos éramos novos, mas rapidamente fomos obrigados a crescer e a assumir a responsabilidade sobre muito do que se passava. Várias situações descontrolaram-se, resultando em problemas sérios.

Havia lealdade, mas nem sempre; amor, mas nem sempre. Nem sempre éramos saudáveis um para o outro, mas, no final do dia, por mais caos em que nos víssemos envolvidos — fosse causado por nós ou despoletado por terceiros —, por mais términos e retornos, amávamo-nos. E confesso que nunca deixámos de nos amar; pelo menos, eu nunca a deixei de amar.


Se posso dar o meu relacionamento como exemplo de uma relação típica? Certamente que não. Se posso fazer generalizações com base no que vivi? Certamente que não. Mas o que é a nossa opinião senão o resultado da interpretação que damos ao que sentimos? Repare, leitor, que referi a interpretação do que sentimos, e não o que aconteceu. Porque a reality nada mais é do que aquela em que o sujeito crê como real. Todos temos dogmas sobre a realidade de forma a não enlouquecermos. Suspendemos o juízo e o questionamento para diminuir a ansiedade despoletada pela incerteza e pelo desconhecido.

Porém, existe uma interpretação mais ou menos consensual e universal do real — aquilo a que chamamos ciência. E o que é a ciência senão a verificação repetida de um fenómeno? As suas conclusões nada mais são do que o resultado mais provável. Vivemos sobre probabilidades e não sobre certezas. Assumimos que o sol nascerá amanhã porque ontem o vimos nascer. Porém, só amanhã teremos a confirmação de que nasceu. Vivemos numa constante projeção e expectativa dos resultados observados no passado para antever o presente.


Dito isto, o leitor já terá concluído que vou tentar basear as minhas opiniões em algo mais do que na interpretação isolada das minhas experiências. Vou apresentar correntes científicas sobre vários dos temas que iremos debater. Por vezes, irei fugir da ciência para me refugiar na filosofia, quando a primeira não for suficiente para pensarmos sobre o real. A ciência tem as suas lacunas, tanto quanto a filosofia. Vivemos com o que temos — como dizia o outro.


O que é, afinal, amar?


Teremos de começar por definir o ato de amar. Na literatura, muitas são as narrativas em que se fantasia o amor como algo mágico, inconstante, uma verdadeira entidade que nos controla, incompreensível e, por vezes, perigosa. Ou então como algo belo e divinal. Ao mesmo tempo, muitos são os contos em que o amor é usado para isentar a responsabilidade humana, ou pelo menos para atenuar as ações do Homem. Poderíamos perder meses a debater essas fascinantes interpretações, mas teremos de nos focar nas mais consensuais.

Em psicologia, o amor não é visto como algo mágico, mas sim como um processo físico e emocional; uma construção psicológica multifatorial causada e sustentada por diversos mecanismos biológicos, envolvendo emoções, pensamentos e comportamentos. O amor é visto como um processo dinâmico de conexão, escolha (consciente ou não) e vinculação.

Para Robert Sternberg, o amor considerado completo (o amor consumado) é composto pelo equilíbrio de três pilares:

  • A Intimidade: É o componente emocional. Envolve um conjunto de sentimentos e o desejo de estar próximo. Enquadra-se na cumplicidade, na confiança recíproca e no desejo de promover o bem-estar do outro. Implica uma entrega, um colocarmo-nos vulneráveis de modo a sermos vistos e compreendidos e, por sua vez, o desejo de cuidar e fazer o outro florescer.

  • A Paixão: É o componente motivacional e fisiológico. Envolve a atração física, o desejo sexual e a idealização. É o impulso que alimenta o desejo, os pensamentos e as ações — sustentado pelos sistemas fisiológicos e neurais. Este é o componente mais inconsciente do processo.

  • O Compromisso: É a componente cognitiva. É o conjunto de pensamentos e decisões conscientes de amar e manter o relacionamento a longo prazo, apesar dos problemas e das crises. É a parte consciente do processo.


Em suma, amar é um processo dinâmico que cruza o fisiológico, o emocional e o racional. Pressupõe a proximidade, a atração e a idealização, levando à confiança e desenvolvendo uma vinculação profunda. Sendo que creio que não escolhemos quem amamos — muito menos escolhemos por quem nos sentimos atraídos —, escolhemos, sim, ficar, preservar ou destruir a relação.


O Eco da Infância e os Critérios do Amor Saudável


O amor é visto por algumas correntes, das quais sou adepto, como uma evolução das vinculações que desenvolvemos na nossa infância.


Pais ausentes, ou as figuras de vinculação primária que preencheram esse papel, criam pessoas que amam de forma insegura: indivíduos controladores, cronicamente aterrorizados com o abandono. Pais ambivalentes, onde existe uma alternância entre a presença/afeto e a distância/agressividade, criam pessoas instáveis relacionalmente. Por fim, pais presentes, coerentes e equilibrados criam pessoas que amam de forma saudável.


O amor saudável é aquele em que as partes reconhecem a sua independência — proveniente de uma forte regulação emocional e de uma boa autoestima —, mas escolhem ser o suporte emocional um do outro.


Amar é precisar, mas sem depender. Amar é tener a capacidade de ficar quando as crises surgem, mas saber dizer "não" quando o abuso começa. Amar é saber ajudar, mas também permitir ser ajudado. O amor é vulnerabilidade e coragem.

Se fôssemos sintetizar as abordagens terapêuticas modernas para simplificar a análise, a psicologia define o amor saudável através de três critérios práticos:


  • Regulação Emocional Mútua: Amar é ser capaz de co-regular o sistema nervoso do outro (trazer calma em momentos de stresse), em vez de ser uma fonte crónica de ansiedade.

  • Reciprocidade e Alteridade: É reconhecer o outro como um "outro legítimo", com desejos, defeitos e paixões próprias, e não como uma mera extensão de nós mesmos.

  • Funcionalidade: O amor saudável expande a vida do indivíduo, leva ao florescimento de ambas as partes. Se a relação reduz a sua autoestima, anula a sua identidade ou destrói a sua saúde mental, a psicologia não chama a isso amor, mas sim vínculo traumático, projeção ou dependência.


Para concluir este raciocínio, o "nós" é maior do que as partes, e não apenas a soma delas. Uma relação saudável é um fundir das identidades, sem as anular, criando uma identidade nova — o nós. O nós substitui as partes.


Demorei muito tempo a compreender do que se tratava este impulso. Inicialmente não lhe chamava amor, porque acreditava que as palavras eram insuficientes para definir o sentimento. Compreendi, ao fim da segunda relação, que a pessoa mudava, mas o sentimento de base era o mesmo. O "nós" era diferente em cada relação, naturalmente, mas a motivação inconsciente que me sustentava permanecia idêntica. Era a mesma porque o tipo de vinculação que tive na infância era o mesmo. Pessoas com vinculações inseguras não deixam de o ser na totalidade; podem controlar, moldar e atenuar as consequências, mas a base estará lá — o que não as impede de construir uma relação saudável.


Na minha primeira relação, acreditei que o sentimento se devia exclusivamente à mulher por quem me apaixonei — atribuí a causa ao externo. No segundo relacionamento, compreendi que se tratava mais do "nós", a relação. Por fim, na última relação, compreendi que era mais do que ela, mais do que o nós: era deles, os filhos que idealizei e, por sua vez, a família.

Ao longo dos anos, as minhas conclusões sobre o propósito de amar aproximaram-se daquilo que sempre esteve à frente dos meus olhos: o modelo com que cresci. Os meus pais tinham uma relação saudável, um casamento estável por décadas, e criaram dois filhos num ambiente estável e seguro. O meu pai sempre transmitiu a importância da família e que a sua motivação éramos nós. Para meu espanto, mas para surpresa de nenhuma corrente psicológica, procurei replicar o que vivi em casa.


Hoje sei, sem dúvidas, que o que quero é uma família. Porém, não me vou perder a mim próprio para a ter. Muito menos irei aceitar o abuso ou a falta de respeito apenas para sustentar a hipótese de a alcançar. Uma família implica um ambiente estável financeira, emocional e relacionalmente. Sendo que algumas parcelas da equação eu tenho autonomia para preencher, outras estão estritamente dependentes do outro.


O Relato: Entre o Caos, a Dor e a Poesia


Gostaria de partilhar com o leitor um relato, marcado por dor, intensidade, amor, mas também caos. Que sirva como reflexão:

“Após o último bocejo, apaguei as luzes e deitei-me. Olhei uma última vez para o telefone – e, mais uma vez, sem mensagens. Suspirei, mas sorri. Independentemente do que se passasse, ela ama-me. Vejo nos seus olhos, sinto na sua respiração. Sinto nos seus lábios. Fechei os olhos e tentei adormecer.

Nunca sabemos realmente o valor das coisas até ao dia em que as perdemos. Nunca a dei como garantida, mas, ao mesmo tempo, nunca acreditei que ela fosse embora. Não vivia esse medo, esse pânico. Porém, hoje vivo-o. Hoje esse pânico é real. Não só por ter aberto feridas do passado, mas porque vivi esse abandono com ela. Ela foi embora. Não existe como negá-lo. Mas voltou.

Desde que ela voltou que adormeço sempre com o telemóvel ligado e, surpreendentemente, virado para mim. É como se ela estivesse ali, ao meu lado, comigo. Todos estes dias tenho acordado com as suas mensagens. Às vezes apenas para dizer o quanto me ama; outras vezes, preocupada. Estou aqui para a ouvir, mas finalmente começo-me a sentir ouvido — uma sensação desconhecida, admito.

...

Acordei com um barulho. Olhei para o telefone e vi o ícone com a sua foto. Era ela, tão bela e vívida como no sonho de que tinha acabado de acordar. “Olá”, disse ela. Sorri. Senti o calor a envolver-me o corpo. Era ela. Éramos nós. Trocámos várias mensagens. Umas carinhosas, alguns receios, esperanças e expectativas. A minha? Bem, vê-la hoje. A dela? Espero que o mesmo. Despedimo-nos — ela tinha de ir dormir mais um pouco.

Tentei fazer o mesmo, mas não consegui. Senti um pico de energia — uma mistura de saudades com uma ânsia de a ver. Vinte e quatro horas antes, também acordei. Não eram nove da manhã, mas sim cinco. Tinha um dia todo planeado para estar com ela. Planos, expectativas, desejos e paixões. Queria mostrar-lhe o mundo — o nosso mundo — e aquilo que seria um vislumbre do futuro que a aguardava caso ela lutasse por nós. Ela pede calma. Eu estive sentado, angustiado e desesperado durante seis meses. Sempre vivi bem com o mundo contra mim. Agora, ela contra mim? Não soube lidar com isso. Afundei-me na amargura. E, mais uma vez, tive de me erguer sozinho, incompreendido, mas um sobrevivente. De traumas? Azar? Talvez um sobrevivente de mim mesmo. Cresci a ser amado incondicionalmente. Não senti outra coisa, não conheci outra coisa, até ao dia em que saí de casa e nada me preparou para o que estava lá fora. Ela voltou quando eu estava reerguido, e foi embora quando me comecei a afundar. O que causa um receio: será que irá novamente embora caso eu quebre de novo?

...

Finalmente decidi levantar-me da cama. Prometeu-me ligar, mas, claro, essa chamada ainda não aconteceu. Suspirei de novo, mas estava otimista. Desci as escadas e fui para a cozinha tomar o pequeno-almoço. E como era pequeno este almoço (hihi) — não ando com muita fome, mas ando a fazer um effort. Voltei ao ginásio e pretendo voltar a estar em forma. Dirigi-me à sala, sentei-me ao computador e senti-me inspirado. Os dedos fluíram, e os sentimentos também. Comecei por a descrever.

...

A mulher que não tarda muito será a minha mulher. É minha no sentido de que o seu amor me pertence. Mas chega de pirosadas. Vamos descrevê-la.

Comecemos pelo exterior. Ela é alta, bela e empoderada. A sua silhueta carrega respeito, mistério, desejo, pudor e, para os olhos mais atentos, uma doçura radiante. Olhar para os seus olhos castanhos... o senso comum diria que são apenas mais uns olhos. Mas não, são os olhos. Os olhos que veem e sentem. Os olhos que brilham e irradiam como um sol. Quando os meus olhos se cruzam com os dela, sinto uma chama a percorrer-me o corpo. Sinto um calor profundo e um conforto — sinto-me em casa. Porque ela é casa. Mas, ao contrário de casa, ela é tudo menos familiar; ela é mistério. Cada dia vejo algo diferente no seu olhar. Os seus olhos são como uma paleta de cores. Tantas tonalidades, tantas formas e possibilidades. Os seus olhos são arte, e com eles expressa a sua criatividade. Faz-nos ver aquilo que sem eles seríamos incapazes de enxergar. Os seus olhos fizeram-me conhecer o mundo, pois no reflexo deles vi as tonalidades da vida.

Por cima, vemos duas belas sobrancelhas escuras que delineiam e protegem os seus olhos. Mas mais do que proteger, embelezam. Olhar para elas recorda-me novamente a palavra Arte, porque rapidamente notamos que são desenhadas com rigor e brio. Vejo paixão até nas suas meras sobrancelhas. Elas traduzem expressões que, de outra forma, seriam impossíveis de interpretar. Com segurança posso dizer que, com apenas aquele olhar, é possível para os mais atentos ler o seu estado emocional.

Ela é expressiva. Esconde e representa, mas deixa sempre pistas para aqueles que a sabem ler. Eu leio, mas não vejo palavras; vejo sensações. Ela é, no seu todo, uma sensação. Diria perfeição. E é perfeita não por ser impecável, mas porque o seu conjunto de imperfeições apenas a torna mais real. Ela despoleta a sensação de sonhar. Sonhar é viver, mas, ao contrário dos sonhos, quando abrimos os olhos ela continua lá. Presente. Ela é presença, porque é impossível estar no mesmo ambiente que ela sem a contemplar, sem nos recordarmos de que estamos vivos. Quem vive, sente. E quem a vê, sente algo inexplicável. Ela faz o mundo parar e torna-se o seu centro. O centro do universo? Mais do que isso, a sua fonte de energia. Ela é energia.

Voltemos ao rosto. Libertando-nos do olhar, o que se destaca é o seu sorriso. Um sorriso contagiante, vivo, enérgico e carregado de valor. Quando ela sorri, o seu rosto contrai-se, formando duas belas covinhas em cada canto dos lábios. Covinhas essas que desarmam qualquer dor, qualquer sofrimento e agonia. Fazem-me recordar da infância, da ternura, da pureza e da ingenuidade desses tempos onde a felicidade reinava. Destacaria ainda a sua pele, suave, perfeita. O seu rosto forma uma escultura cuja contemplação é um privilégio. Ela maquilha-se e, nessa maquilhagem, reflete as suas emoções. Os tons, o brilho, as cores e o peso transmitem sentimentos. Tanto os dela como os nossos. É impossível olhar para ela e não sentir algo. Cada dia há um pormenor novo por descobrir. Ela é uma constante novidade, um oceano em flutuação. Sempre bela, sempre doce — mas, dependendo da maré, também sabe ser salgada, caso seja provocada.

Por cima do rosto, o cabelo. Mais um ponto onde se expressa. Toda ela é uma tela por pintar, um livro por escrever. Já vi o seu cabelo comprido, preto, castanho, curto, colorido, encaracolado. Já o vi de todas as formas, mas, sendo sincero, apenas uma me interessou: a forma como ela se manifesta ao sentir-se livre. Essa liberdade fá-la sentir-se viva. Portanto, o seu cabelo é uma janela para o seu coração. Pelo estado dele consigo extrair se se sente livre ou presa, feliz ou em sofrimento. O seu cabelo fala, mas apenas os mais atentos o compreendem.

A liberdade permitiu-lhe expressar-se também através de piercings em tempos. Um simbolismo claro, mas misterioso. Um piercing requer dor e sofrimento para ser colocado, exigindo depois cuidado e proteção. Via neles um reflexo da sua essência: o desejo de liberdade, de ser vista, a lealdade, a doçura e a resiliência. E como ela é resiliente e lutadora. Uma verdadeira guerreira. Hoje vejo no seu rosto as cicatrizes desses belos objetos que a permitiam expressar-se. Isso traz-me uma sensação de nostalgia e o receio de que essas marcas representem, agora, uma sensação de não se sentir totalmente livre.

Antes de descrever o seu corpo como um todo, gostaria de destacar as suas mãos e o seu toque. Mãos suaves, delineadas, simétricas e densas de sentimento. Por um lado, vemos arte nas suas unhas cuidadas e estilizadas; por outro, sentimos tudo através do seu toque. O toque daquelas mãos no meu rosto faz-me sentir calmo, baixa o batimento do meu coração. Muitas vezes, um olhar e o toque das suas mãos bastam para sentir a profundidade do seu amor. Ela expressa-se pelo toque, pois a sua complexidade afetiva é tanta que, por vezes, apenas no contacto físico encontra as palavras para showbiz descrever o que sente.

Por fim, o seu corpo como um todo. A primeira palavra que me vem à mente para o descrever seria templo. O corpo dela é um templo. Merece respeito, merece ser cuidado, preservado e dignificado. É uma fonte de energia, desejo e afeto. Vemos nele beleza, perfeição e também provocação. E como ela sabe provocar, sabe fazer delirar. Nunca senti nada assim com ninguém. Porque ela não é apenas um corpo, ela é uma alma. Senti-la é entrelaçar almas, é fundir-me nela, em nós. Mas o seu corpo é, principalmente, afeto. Foi desenhado para ser cuidado, mimado e protegido. É místico.

Ela é mística. Corpo de Deusa, alma de anjo. É pura, doce e inteligente. Não procura mostrar que é melhor que ninguém — mas no fundo sabe que é. Sabe que vê aquilo que os outros não veem. Mas não o encara como uma bênção, e sim como um fardo que a fez ver coisas que preferia não ter visto. Ela é um anjo, mas coabita também com o seu diabo. Esse diabo fá-la fazer o impossível, fá-la contrariar o que sente, esconder-se e fugir. Faz com que duvide de si própria e distorça as coisas numa tentativa de se proteger. O diabo ajuda-a a representar, a usar uma máscara, mas, por vezes, também a protege de amar.

Amar é complexo e trouxe-lhe sensações contraditórias: fê-la sentir-se assustada, magoada, destruída, usada, mas também viva, feliz e com sentido. Quando se sente amada, sente-se livre. A sensação de proteção e carinho fá-la florescer. Fá-la voar.

Eu apenas aprendi a amar com ela. Ela ensinou-me a viver, a explorar e a crescer. No processo de a amar, de cuidar dela e de a proteger, tornei-me um homem. O seu homem. O passado carrega um peso no presente, mas desde que a amo que apenas vivo o presente e me dedico a construir um futuro. O nosso futuro. Ela mostrou-me que amar tem quatro letras, mas apenas um significado na nossa vida: nós.

Descrevê-la é complexo porque ela é um mundo por conhecer, um caminho por trilhar. Um ser em constante mudança. Gostava que ela se conseguisse ver através dos meus olhos. Gostava de estar mais presente para lhe recordar que merece ser amada, merece ser feliz e merece ser livre. Ela é leal, honesta, transparente, justa, empática, resiliente e corajosa. É tudo isso e muito mais.

...

Parei de teclar, respirei fundo e descansei. Não tinha terminado de a descrever; apenas tinha retratado um átomo da sua essência. Faltam os outros triliões por descrever e conhecer. Sinto-me calmo. Sinto-me vivo. Anseio por um futuro, o nosso futuro. Se um dia partilhar com ela este texto, espero que o guarde para os momentos em que duvidar de si própria, para se relembrar de quem é por quem a ama. Os meus olhos veem a sua alma, o nosso beijo o seu coração e o nosso abraço o seu calor.

Mais do que te amar, eu vejo-te. E desejo que sejas livre, nos meus braços, no nosso futuro e com os nossos filhos.”


Conclusão


A linha que separa o amor da obsessão reside na liberdade. A obsessão precisa da posse para aliviar o medo do abandono; o amor precisa apenas da presença consciente e do respeito mútuo. Quando o "não vivo sem ti" deixa de ser uma metáfora romântica e passa a ser uma verdade literal, o amor deu lugar à dependência. E o vício, mesmo o afetivo, acaba sempre por destruir o hospedeiro.

Gostaste desta reflexão? Se este texto te fez olhar para as tuas próprias relações de outra forma, guarda-o para não te esqueceres de onde termina o teu limite e onde começa o do outro. E diz-me nos comentários: achas que é possível curar um amor que começou dependente?

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