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A Ilusão da Abundância e o Descarte do Real: O amor como mercado

As relações duram cada vez menos, e tal não é surpresa para ninguém. Não é por falta de amor, nem por um decréscimo na procura por vínculos significativos. É, entre outros aspetos, pela transformação das relações amorosas em bens de consumo.

Amar passou a ser um mercado. Um mercado onde, com um clique, temos milhares de parceiros disponíveis. Onde o corpo passou a ser visto como um bem de consumo público, acessível através de ecrãs. Onde a seleção de parceiros é feita com um deslizar de uma foto, e não por uma interação orgânica. A normalização do indivíduo enquanto bem publicável, consumível e publicitado, que leva a expectativas irrealistas em relação ao parceiro, é assustadora.


O sociólogo Zygmunt Bauman explica que as relações humanas na era atual passaram a ser tratadas como bens de consumo. A lógica do mercado foi transposta para o amor: os vínculos são mantidos enquanto geram satisfação imediata e são descartados assim que exigem esforço ou trazem desconforto. Há uma transição do conceito de "relacionamento" (que exige estrutura e tempo) para o conceito de "conexão" (que pode ser ligada e desligada ao sabor do ego e substituída instantaneamente por um clique).


A perda de limites e de respeito próprio nesta dinâmica é gritante. As pessoas deixaram de se respeitar, de se compreender e de saber quem são e do que precisam. Sim, do que precisam e não do que querem. Cedem a momentos efémeros de prazer, sem pensar no amanhã. Entregam o seu tempo, a sua alma e até o seu corpo de forma impulsiva e inconsciente. Deixou de existir o mínimo de critério.


Talvez tenha uma visão antiquada de certos aspetos sociais e culturais no que toca às relações, no entanto, acredito que uma pessoa se deve entregar a um parceiro de forma íntegra. E não a dezenas de encontros sem sentido e superficiais.

Uma ligação profunda entre duas pessoas implica esforço, tempo e investimento afetivo. Não basta um clique, é preciso dedicação de ambos os lados. O problema com os parceiros selecionados através de ecrãs é que essa escolha parte de uma decisão consciente baseada na projeção de um ideal — construído através de determinados traços físicos —, induzindo às expectativas estritas que esse ideal implica.


Ao contrário dessa seleção mecânica, a atração inicial e a química entre duas pessoas não se devem a uma decisão racional, mas sim a um impulso despoletado de forma inconsciente. É isso que desperta nos indivíduos um aspeto mais orgânico no sentimento resultante e na interação emocional. Porém, o processo subsequente de vinculação real exige tempo e esforço para construir vias neurais sólidas. Atualmente, as pessoas entram e saem de relações com a mesma naturalidade com que passam para o TikTok seguinte. As relações são mantidas apenas enquanto geram satisfação imediata e egoísta, passando a ser um fardo assim que exigem o mínimo de esforço.


Este fenómeno é notoriamente mais evidente no sexo feminino. E a razão é simples: as mulheres têm uma abundância significativamente maior de escolha e de validação por parte do sexo oposto — o que, já agora, é um dado estatístico.


O excesso de alternativas satura a psicologia feminina. Longe de gerar maior liberdade, a abundância de opções traduz-se em maior ansiedade, insatisfação e dúvida constante. Em vez de valorizarem o parceiro que têm diante de si, perdem tempo a questionar-se se alguma das outras centenas de opções seria melhor. À mínima dificuldade, insatisfação ou mal-entendido, descartam a relação e recorrem às próximas alternativas. Outro aspeto é o egocentrismo. O excesso de atenção do sexo oposto — entre gostos, comentários, mensagens e interações sociais onde claramente existe desejo — causa uma ilusão de empoderamento e vaidade, gerando uma idealização sobre o seu próprio valor que está completamente desfasada da realidade. Isto acelera o descarte do parceiro: como é tão fácil escolher e ter outro, o esforço que implica manter o atual é visto como uma perda de tempo.

No lado do homem, este fosso entre a abundância de escolhas da mulher e a escassez e dificuldade do lado masculino gera ressentimento. Esse ressentimento, ligado a uma óbvia fragilidade do ego, alimenta o machismo e as barbaridades sobre a masculinidade que são agora amplamente disseminadas nas redes sociais. Creio também que isto leva a uma maior insegurança em relação à parceira nos relacionamentos, gerando padrões tóxicos por parte do homem numa tentativa supérflua de mitigar o medo do abandono ou da traição.

Daí crer que a traição por parte de um homem diz muito sobre a sua falha de caráter, pois, para o fazer, implica um esforço ativo e consciente. O homem não acorda, sai de casa e envolve-se com a primeira mulher que lhe aparece à frente; tende a existir um investimento prévio e a decisão consciente de se colocar em contextos que o permitam. No caso da mulher, devido à facilidade de acesso e à abundância de escolhas que a rodeiam, o custo de oportunidade percebido é menor, tornando a traição ou o descarte um ato muitas vezes impulsionado pela ilusão de impunidade que o mercado digital lhe garante.


Outro problema que advém deste fenómeno é o facto de todas as relações parecerem maravilhosas no início. Porquê? Porque a ligação inicial dá-se com a idealização e a expectativa que projetamos no outro. O nosso cérebro não distingue perfeitamente entre o estímulo factualmente processado daquele que foi criado internamente. Dito isto, se no início estamos entusiasmados com o outro porque inconscientemente este é percecionado como o ideal, teremos sempre a tendência de olhar para trás e pensar que "no início é que era bom", e que o outro veio a revelar a sua verdadeira (e pior) faceta com o tempo. Não! Quem nós somos está tanto no início como no final. A falta de inteligência emocional é que nos leva a descartar o óbvio.


Como dita o Paradoxo da Escolha de Barry Schwartz, quanto maior o número de opções disponíveis, maior é a insatisfação com a escolha feita e menor é o compromisso com a mesma. É uma regra universal para diversos contextos da nossa vida, sustentada por múltiplos mecanismos cerebrais de saturação dopaminérgica.


Em suma, estatisticamente o volume de abordagens e a validação constante concentram-se no espetro feminino. Esta abundância ativa o Efeito de Contraste: o homem real, de carne e osso, com as suas falhas e monotonia normais, perde sempre a comparação com a "amálgama abstrata e perfeita" das centenas de perfis virtuais disponíveis à distância de um clique. O homem deixa de ser um indivíduo único e passa a ser visto como um recurso temporário. Quando o acesso ao próximo início parece infinito, o custo de oportunidade de abandonar uma relação ao primeiro sinal de fricção ou tédio torna-se zero. Não há incentivo para reparar, para conversar ou para ceder.


As pessoas têm defeitos e virtudes, sendo que estes conceitos não existem de forma absoluta na matéria. A atribuição de uma categoria positiva ou negativa a um determinado traço comportamental do outro é feita de forma arbitrária, baseada nos nossos padrões passados, que podem não ter nada a ver com quem realmente temos à nossa frente.

Lembro-me da altura em que senti não me faltarem opções. Foi o período dos 13 aos 16 anos. Nessa altura começou a normalização do Instagram como a rede social predominante entre a minha geração. O Facebook deixou de ser interessante e toda a gente migrou para lá. Havia constantes comparações entre o número de seguidores, de gostos e até de comentários. Patético, certo? Bem, parece que isso não parou, só piorou — especialmente com o surgimento do TikTok onde, de repente, qualquer pessoa atinge milhares de visualizações. Essa foi, aliás, uma das razões pelas quais desativei inúmeras vezes a minha conta e, durante anos, não usei qualquer rede social.


O problema de não usar redes sociais deve-se ao facto de estas serem utilizadas como a via principal de comunicação. Recordo-me perfeitamente de que pedir o número de telemóvel a uma rapariga era considerado algo demasiado íntimo, porém, ter acesso ao seu perfil com dezenas de fotografias e vídeos a retratar a sua vida — despida de qualquer privacidade — já não era um problema. Isto sem falar que hoje as redes sociais são uma das formas mais eficientes de ter o trabalho visto por terceiros, o que ainda me causa alguma confusão mental.


Mais do que um meio de comunicação, o Instagram naquela altura funcionava como um Tinder. As pessoas avaliavam-se mutuamente com base no perfil. Facilmente se trocavam mensagens com dezenas de pessoas e vários encontros eram extraídos dali. Sinceramente, tenho péssimas recordações desse período. O que me magoou mais foi o facto de ter ficado com a reputação de ser um homem superficial, frio e que apenas estava interessado em encontros por razões sexuais e não emocionais.


Essa reputação foi culpa minha. Coloquei-me em situações onde não fui respeitado e não me dei ao respeito. Esses encontros vazios deixavam-me doente e genuinamente ferido porque, despindo toda a imaturidade de muitos dos meus comportamentos, no íntimo eu queria realmente intimidade. E quando a demonstrava, as pessoas tinham sempre um pé atrás ou simplesmente não me levavam a sério. Foi uma altura onde explorei bastante quem era, o que procurava e, no fundo, tentava perceber quem queria ser. E sim, tive alguns encontros que, apesar de não terem evoluído para uma relação, acrescentaram algo de positivo — houve respeito e cumplicidade dentro do que cada um procurava.


O que me custou mais foi a normalização da objetificação das pessoas e a facilidade com que eram descartadas e substituídas. Fazer parte desse sistema, mesmo por um breve período, marcou-me negativamente.


O que assisti nas duas relações que tive nestes últimos sete anos foi exatamente esse fenómeno: a perceção por parte da parceira de que, à mínima desavença, poderia aceder a algo mais excitante e novo, aumentando a sensação de impunidade em determinados comportamentos. Não estou a dizer que o fator único que determinou o insucesso desses relacionamentos foi esta variável, e muito menos que não tive a minha quota-parte de responsabilidade, apenas que este fator pesou esmagadoramente. E foi isso que despoletou a minha necessidade de ler, estudar e pensar sobre o tema, levando-me à conclusão de que este é um fenómeno amplamente conhecido e disseminado.


Uma vinculação do ponto de vista neural e biológico demora tempo e exige esforço. A construção de um vínculo forte cria vias neurais que só o tempo reforça, tornando-as mais complexas e eficientes, resultando numa sensação de apego e amor cada vez mais profunda. As redes sociais e a transformação das relações em bens de consumo aproveitam-se do instinto primitivo do Homem. A motivação para a exploração de um determinado parceiro deve-se à associação entre certos traços físicos e a maior probabilidade de reprodução saudável do material genético. Sendo que a mulher é, por natureza, bastante mais seletiva pelo facto óbvio de a gestação de nove meses se dar no seu ventre. Logo, a propagação dos seus genes de forma eficiente tem um custo de oportunidade biologicamente superior. Enquanto o homem, historicamente, adaptou-se também a estratégias baseadas na oportunidade com um custo inicial mais baixo, deixando a seleção natural ditar a sobrevivência.


O amor surge evolutivamente como o elo que liga a mãe e o pai à cria; sem este elo, as probabilidades de sobrevivência de um ser que cresce prematuro e incapaz seriam nulas. Daí que, enquanto espécie, fomos evoluindo e, juntamente com o crescimento exponencial do nosso córtex, estruturámos a monogamia, criando toda uma cultura, lei e pressão social para a manter de pé. A religião ocidental católica contribuiu grandemente para a manutenção deste fenómeno, conferindo-lhe uma dimensão divina. O casamento, e com ele a regra social da exclusividade, foi em grande parte desenhado para garantir a certeza da paternidade e incutir em ambos os membros o dever de cuidado.


Atualmente as coisas mudaram. O valor da monogamia tem sido posto em causa, o casamento perdeu a sua força institucional e a ideia de pureza ou exclusividade total no ato da entrega à relação é vista por muitos como um conceito pré-histórico.

Nós, humanos, gostamos de acreditar que temos um controlo absoluto sobre as nossas escolhas, mas a psicologia prova que não temos. No entanto, temos de trabalhar com as ferramentas que possuímos. No que toca aos nossos relacionamentos, devemos compreender, em primeiro lugar, quem somos: os nossos limites, desejos e falhas. O "eu" tem de estar em primeiro lugar, despido de ego, humilde e com capacidade crítica de se avaliar e responsabilizar pelas suas ações. Em segundo lugar, devemos compreender não o que gostávamos idealmente de ter num parceiro, mas sim o padrão daquilo que temos andado a encontrar.


As pessoas por quem nos apaixonamos seguem uma linha direta que remete para a nossa infância, para as vinculações e estilos de apego que tivemos com os nossos cuidadores primários. A dinâmica de vinculação vivida em casa é projetada para fora dela, sendo transformada e associada às relações que encontramos no meio social. A partir daí, segue-se um ciclo constante e impulsivo de repetição de padrões. As caras mudam, as personalidades, as idades e as fases da vida alteram-se, porém a dinâmica latente — se a deixarmos solta — continuará a ser exatamente a mesma. Este conflito que se encontra entre o parceiro real e o padrão inconsciente recorrente é algo extremamente difícil de quebrar, mas fundamental.


Na teoria, ultrapassar este conflito requer compreender o padrão, decifrar que vazio emocional ele está a tentar preencher em nós, e aprender estratégias saudáveis de preencher esse espaço connosco próprios e não através do outro. Por fim, exige compreendermos o que realmente queremos alcançar com uma relação a longo prazo, focando a busca no alinhamento de objetivos concretos para o futuro e menos nos impulsos efémeros do presente.


Sinto que comecei por focar-me primeiro em quem me fazia sentir bem no primeiro relacionamento que tive, em 2017. Mais tarde, de 2019 a 2022, no meu segundo relacionamento, além de procurar quem me fazia sentir bem, foquei-me obsessivamente na relação em si e nos contornos dela, insistindo em estar lá para a parceira, custasse o que custasse ao meu próprio bem-estar. Por fim, em 2024, na minha última relação, foquei-me tanto no futuro que procurava construir para mim e com ela que isso me levou a desprezar a amargura e o caos que estava a viver no presente, sem sequer parar para me questionar se o alinhamento aparente entre os objetivos de futuro existia de facto nas ações diárias ou apenas nas ideias e na retórica.


Nós não podemos aceitar ser um produto num mercado recheado de opções. Não podemos ser escolhidos com base nas aparências que somos induzidos a publicitar num perfil digital, e muito menos desistir de uma relação apenas pela ilusão de termos outras opções fáceis à espreita. Temos de nos valorizar, respeitar e manter a integridade individual. Não sei quanto ao leitor, mas eu estou cansado de compactuar e viver neste sistema — que sempre existiu, mas nunca nas dimensões patológicas que hoje atinge. Não sou contra as redes sociais, apesar de acreditar que pouco ou nada acrescentam ao desenvolvimento humano. Sou, sim, contra a transformação das relações em produtos de consumo. Não procuro mudar o mundo nem as escolhas de cada indivíduo, mas recuso-me categoricamente a fazer parte disso.

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