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O Fim do “Nós”: A Relação Acaba e o Sentimento?


 

Quando uma relação termina, temos a tendência de acreditar que, com o tempo, o sentimento desvanece. Mas será mesmo esse o caso?

 

Uma relação é entendida como uma conexão profunda entre duas entidades. Duas almas fundem-se numa só, deixando de existir identidades individuais para dar lugar a uma coletiva. O “eu” e o “tu” passam a ser o “nós”. Isto de um ponto de vista emocional, quase poético, diria.

 

O fim e o início nada mais são do que marcos temporais arbitrariamente decididos pelas partes. Da mesma forma, começar um relacionamento do ponto de vista contratual não implica necessariamente a existência de um sentimento profundo de amor. Pressupõe-se, claro, uma cordialidade e um “gostar de” entre ambos; porém, apenas com o tempo esse sentimento se vai desenvolvendo até chegar ao tal “nós” — entendido aqui como o amor profundo.

 

O amor pode ser conscientemente cultivado ou sabotado. Porém, grande parte deste processo dá-se no inconsciente. Amar é um ato primitivo, impulsivo e inconsciente. Não escolhemos quem amamos, quando amamos, quanto amamos e, muito menos, por que amamos.

 

Quanto mais primitivo é um comportamento, menos capacidade temos de o compreender racionalmente. Sendo assim, quando se dá o ato do término — ou seja, a quebra contratual arbitrária entre uma ou ambas as partes deste compromisso —, tal em nada dita o fim do sentimento. Existem inúmeras, ou melhor, infinitas possibilidades e contextos onde se dá o término de um relacionamento, o que não interessa minimamente para o caso. O sentimento não evapora, ao contrário da relação, que pode terminar.

 

A minha vida, ainda curta, não obstante, foi marcada por três relacionamentos. Como em todas as relações, houve o início — marcado pela excitação e pela euforia do novo, do idealizado, onde tudo é sentido como paradisíaco. Seguiu-se o desenvolvimento — marcado por uma desilusão gradual, causada pela desconstrução do ideal face ao real, onde surge pela primeira vez o amor profundo. O amor profundo, ou verdadeiro, chamemos-lhe assim, é despoletado pela perceção real dos atributos e defeitos do parceiro. Chamei-lhe verdadeiro porque se deve à essência real do outro, e não ao idealizado. É nesta fase que surgem muitos conflitos, levando ao término prematuro da relação devido à desilusão despoletada pelo fosso entre o real e o idealizado. A relação também se pode instaurar, porém, sob moldes tóxicos, normalmente provenientes do conflito entre a expectativa e a realidade que as partes têm do parceiro.

 

(Um aparte: uma relação tóxica vem de ambas as partes. Esta ideia da existência de uma vítima e de um predador é uma tentativa de muitos autores, e até clínicos, de dar um sentido mais conveniente ao sofrimento dos seus leitores ou pacientes. O clássico: "o problema não és tu, é ele", "não és tu, é o contexto", etc. A tal exteriorização da responsabilidade do indivíduo para o meio. Não existe uma vítima ou um predador isolados. Existe, sim, uma dinâmica de vítima e predador, onde ambos alternam entre papéis, podendo ambos ter o mesmo papel num determinado ponto da relação. Porém, este é um tema para outro ensaio).

 

E, por último, temos o término do relacionamento. Uma das categorias já foi abordada, faltando-nos os casos em que a relação termina após ter operado em moldes tóxicos — levando várias vezes a constantes reuniões e términos, num verdadeiro ciclo de caos. Há, por fim, o término saudável, que se deve, muitas das vezes, a mudanças de perspetivas de vida entre uma ou ambas as partes. De notar que existem inúmeras outras circunstâncias onde se dá o fim de uma relação.

 

Portanto, tive três relacionamentos que seguiram estas três fases, de formas totalmente distintas em alguns aspetos, e noutros bastante similares.

 

O meu primeiro relacionamento começou quando eu tinha 13 anos. Naturalmente, tinha pouca maturidade e capacidade de perceção do que me rodeava. Se era um rapaz normal de 13 anos? Efetivamente não era o caso. Não me considero especial, seja nessa idade ou, muito menos, agora; porém, era um adolescente bastante mais maduro do que os meus pares.

 

Do ponto de vista lógico, tinha já bastante repertório sobre alguns temas complexos, especialmente para aquela idade. Isso causou diferenças marcantes a nível comportamental, levando a um isolamento forçado pelos pares, os quais nutriam alguma aversão ou, talvez, simplesmente estranheza pelo desvio à normalidade e ao expectável.

 

Portanto, apesar desta maior maturidade cognitiva, esta vinha compensar uma total imaturidade emocional e relacional. Era tímido e não tinha qualquer noção ou experiência em relacionamentos sociais, muito menos amorosos.

 

Senti pela primeira vez o que era amar alguém, sentir-me amado e a ideia de um compromisso, de uma amizade e de um namoro. Tudo isto num espaço de um mês — porque o relacionamento contratual não durou mais do que isso. No entanto, a relação que tive com ela durou muito mais.

 

Foi até quando não estava a namorar com ela que efetivamente comecei a amá-la verdadeiramente. Esta relação, no sentido em que existia uma vinculação, o tal apego e amor — neste caso, bem possivelmente unilateral do ponto de vista romântico —, durou cerca de dois anos.

 

Quando houve o afastamento, reparei estupefacto que o sentimento não desaparecia. Tive inúmeros encontros amorosos, dentro do contexto da minha idade, claro; conheci diversas outras mulheres, acreditava ter-me apaixonado por uma ou outra nesse período, mas nunca a esquecia. Havia fases onde este sentimento estava adormecido, porém, bastava uma mensagem, uma foto ou uma simples memória para despoletar o mesmo durante semanas — acompanhado por uma sensação de saudades inerente à ausência do objeto (no sentido freudiano) amado.

Hoje compreendo que o amor verdadeiro não desaparece, não é esquecido, muito menos é ultrapassado: é, sim, integrado na história do indivíduo — mas já vamos lá.

 

O meu segundo relacionamento começou quando tinha 15 anos, já no ensino secundário. Nessa fase sucedeu-se um grande salto de maturidade, intelectualidade e repertório geral. Esta rapariga era minha colega de turma, pelo que existia muito contacto diário.

 

Nessa altura, eu estava a tentar ser o mais frio e racional possível, pois na minha cabeça era possível fazer essa separação entre razão e emoção; tentei proteger-me emocionalmente. Porém, ao longo dos meses, fui-me enamorando cada vez mais por ela. Se existia reciprocidade? Claro, talvez não na mesma intensidade. Até que chegou o momento em que aceitei que gostava dela.

 

Amava-a tanto, porém não queria mesmo aceitá-lo. Apelidei este amor, mais tarde, de amor platónico, porque nunca existiu qualquer contacto físico entre nós. Era um amor que navegava entre a fantasia e a realidade. Considero-o profundo e verdadeiro, no sentido em que me enamorei da mulher real e não de uma idealização. A fantasia vinha do futuro que eu imaginei poder existir entre nós.

 

Esta relação ensinou-me a ser homem. Ensinou-me a ter calma e a amar verdadeiramente. Ela era uma prioridade, existindo pela primeira vez o conceito de “Nós”. Aprendi a analisar quem amava, a compreender cada nuance do que sentia, a apoiar e a colocar a parceira em prioridade quando necessário. Não sinto que fui o cuidador; sinto que fui o parceiro, o homem. Havia, contudo, um grande receio e medo do compromisso de ambos os lados. Durante muito tempo acreditei que fora apenas do lado dela, mas hoje consigo aceitar que foi de ambos.

 

Desejava mesmo uma relação com ela – amava-a. Pensava nela, escrevia sobre ela — sobre os momentos, sentimentos e desejos. Porém, ela fugia sempre que o sentimento se tornava demasiado intenso e real. A verdade é que, se ela me tivesse dado o que eu queria — a relação amorosa —, eu não estaria pronto.

 

Foi nesta relação, neste sentimento e com esta mulher que eu efetivamente compreendi o conceito de a relação terminar, mas o sentimento não. Demorou sensivelmente dois anos até eu conseguir integrar o que aconteceu. Seguir em frente. Aceitar que terminou e aceitar que ela não ia voltar.

 

Pintei inúmeros quadros, escrevi inúmeros ensaios e, por fim, escrevi até um livro. Este livro ajudou-me a seguir em frente e a fechar o capítulo. O que senti nesta relação, o tal amor, foi de uma intensidade, uma pureza e até ingenuidade que nunca mais viverei. Era novo, a transitar de adolescente para adulto, e ela foi a minha primeira verdadeira paixão.

 

Em último, o terceiro relacionamento. Neste já não era um adolescente, já era adulto. Já era homem. Esta foi a primeira relação que tive no sentido de existir um compromisso formal, uma vida partilhada, momentos, desejos e sonhos. Conheci lados de mim que nunca imaginei encontrar.

 

Explorei e descobri a sensação de intimidade. Estava mais do que apaixonado. Via nela a mãe dos meus filhos. Via nela a mulher com quem me iria casar, construir uma família e, um dia, morrer ao seu lado. Antes dela, tudo isto eram ideais, sonhos que realizaria mais tarde. Nesta relação, com esta mulher, senti que os estava a viver. Acreditei mesmo que me iria casar com ela, acreditei mesmo que teríamos filhos juntos — até os nomes já tínhamos escolhido...

 

Esta relação foi marcada por muitos conflitos e problemas graves. Num determinado ponto da relação, receei pela vida dela. Vivi a ânsia de não saber se a ia perder para sempre — no sentido em que ela poderia ter falecido.

 

Só tinha 21 anos porém suportei um peso e uma responsabilidade que levariam muitos a virar as costas e a ir embora. Não fui embora — porque quem ama não vai embora, mesmo quando o outro erra e falha —, mas a que custo?

 

Amar é sofrer, porque não existe amor sem vulnerabilidade. Não dá para amar com um escudo em frente. Não existe espaço para proteção. Apenas vulnerabilidade. Mas é na vulnerabilidade do “Nós” e do outro que nasce verdadeiramente o compromisso, a lealdade e o amor. Só despidos é que vemos verdadeiramente quem somos e quem o outro é. E não havia dúvidas de quem ela era, tanto nos defeitos quanto nas qualidades.

 

Não tinha segredos — mesmo quando estes foram usados contra mim —, não pensava, sentia. Amava e agia. Era impulsivo e, por isso, genuíno. Não me protegi, amei. Mas mais uma vez, a que custo?

 

Perdoei traições, perdoei ameaças e até perdoei, bem... o que jamais deveria ter perdoado. Ela não era um monstro, pelo contrário; porém, vivia num caos tão grande, profundo e antigo que não pensava duas vezes se o mesmo destruiria tudo e todos à sua volta. Ela tentou, num certo ponto, pôr em causa o meu futuro. Esta relação não foi nenhuma brincadeira, tendo em determinados momentos contornos a beirar o inimaginável.

 

A relação terminou e recomeçou mais vezes do que aquelas que consigo contar pelos dedos das mãos. Um ciclo de caos. Devia ter ido embora muito mais cedo. Porém, eu sabia que tal não ia cessar o sentimento. Já não era a primeira vez que estava a viver um término. Desta vez sabia perfeitamente que não ia deixar de a amar. Mas o que me custou mais não foi isso: foi a sensação de sentir que estava a abandonar o meu propósito — os filhos, a família e a mulher.

 

Em suma, estas três relações, com três mulheres distintas, em fases e contextos da minha vida completamente diferentes, tiveram algo marcante em comum: a relação terminou, mas o sentimento nunca.

 

Para compreendermos por que razão o sentimento não termina, temos de olhar para os dados científicos em diversas áreas.

 

Em neurobiologia, através de estudos de ressonância magnética funcional, concluiu-se que o término de uma relação ativa no cérebro as mesmas áreas associadas à dor física crónica e à abstinência de drogas pesadas. Quando uma relação acaba, os níveis de dopamina e oxitocina — dois neurotransmissores responsáveis pela vinculação e pelo prazer — baixam drasticamente, enquanto o cortisol — a hormona do stresse — aumenta brutalmente. O cérebro interpreta a ausência do parceiro como uma ameaça à sobrevivência, gerando uma crise de abstinência. O sentimento não cessa com o término pois os circuitos cerebrais que o sustentavam continuam ativos. Mais do que ativos, estes, ao aumentar o cortisol, levam ao desejo sôfrego da substância — no caso, o parceiro — para os alimentar. É em tudo similar à abstinência de substâncias químicas.

 

Na psicologia clínica, muitas vezes o término de uma relação é equiparado à síndrome do membro fantasma. O sujeito sabe racionalmente que a relação acabou, mas o seu mapa mental do mundo foi construído com o outro. A mente continua a projetar expectativas no vazio. O amor que sobra é, muitas vezes, a energia de um hábito cognitivo que ainda não foi desfeito.

 

 

Dentro da Teoria do Apego de John Bowlby, existe a teorização das fases do luto relacional. A primeira é marcada pelo protesto: existe uma recusa irracional em aceitar o fim, levando a tentativas desesperadas de reaver o objeto amoroso. A segunda é marcada pela aceitação do término como facto real, gerando uma desorganização mental e emocional, acompanhada de uma melancolia profunda e de um questionamento irracional do sentimento vivido. Por fim, surge a fase do desapego, onde o amor deixa de ser um impulso de posse e passa pela integração do mesmo como um dado biográfico da vida do indivíduo.

 

Para os psicólogos existenciais, o amor que foi real nunca cessa. O fim de uma relação não invalida a verdade do que foi sentido no passado. O amor verdadeiro e profundo aceita a transfiguração: passando de algo somático para uma memória saudável que faz o indivíduo crescer. Se o amor se transforma em ódio, significa que nunca houve verdadeiramente aceitação e respeito pelo parceiro, mas sim uma idealização egoísta da posse.

 

O mecanismo do amor é equiparado à dependência de drogas, tanto na abstinência como na superação do vício. Vencer o vício é um processo altamente exaustivo e muitas vezes sentido como impossível, levando, no limite, a comportamentos desesperados, obsessivos e doentios para conseguir a mais ínfima dose — ou até à morte. Quantos são os casos documentados de suicídio e comportamentos obsessivos após términos de relacionamentos? Pessoas civilizadas, sem qualquer registo criminal, a cometer crimes passionais em detrimento da dor insuportável despoletada por um término.

 

Então, o que fazer ao sentimento — e, já agora, ao sofrimento adjacente? É simples de escrever, mas altamente complexo de executar: integrar o mesmo.

 

Integrar algo é mais do que uma simples aceitação passiva daquilo que não podemos mudar; integrar é um processo de aceitação ativo e racional. Existem diversas formas de o fazer, e muitos meios.

 

No que toca aos meios, recomendo profundamente a escrita. Escrever é uma transcrição para palavras — ou seja, uma simplificação — de algo altamente complexo: os sentimentos. De notar que pensar é sentir. Racionalizar é sentir. E a escrita é um meio acessível para todos, em qualquer lugar e momento. Aprender a escrever sobre o que se sente é uma forma de organizar o caos interno. A abordagem que recomendo é a escrita para a aprendizagem: escrever para compreender o que sentimos.

 

De forma a simplificar, deve-se primeiro descrever o que se pensa sobre o sentimento, seja sobre a pessoa, a relação, o contexto ou os acontecimentos. Nesta fase, a organização temporal e biográfica da relação é o melhor ponto de partida. Ao recordar, estamos a reescrever a narrativa, pois estamos a senti-la, mas num ambiente seguro e distinto, dando-lhe um novo significado.

 

Em segundo lugar, importa extrair a dor: o que nos magoou e onde magoámos. Compreendermos o porquê de nos magoar — mesmo que tal remonte a anos atrás. O cérebro funciona por associação de padrões. Se algo novo nos magoa, deve-se normalmente a uma associação categórica de algo no estímulo novo que se equipara a um estímulo antigo, levando a uma reação emocional decorrente da aprendizagem desse estímulo anterior. Compreender de onde vem essa reação permite separar as diferenças entre estímulos e aprender de forma racional a melhor forma de lidar com o presente.

Repetir padrões é um ato impulsivo porque utiliza vias cerebrais já muito estimuladas. Quanto mais estimulado é um circuito neural, mais mielinizado ele se encontra; por outras palavras, mais automático e rápido se torna o pensamento, o sentimento e a reação. Um circuito mielinizado tem uma velocidade de dissipação do impulso elétrico cerca de 100 a 300 vezes mais rápida do que um circuito não mielinizado.

 

Alterar o padrão de ação perante um estímulo implica a construção de um novo circuito. Esse processo é mais lento, menos automático e exige um maior consumo de glicose — ou seja, requer um maior esforço consciente. A última fase é, naturalmente, a aprendizagem e a alteração dos padrões comportamentais.

 

Integrar o sentimento também implica compreender o sentido e o propósito que o mesmo preenche na vida de cada um.

 

Integrar o sentimento é aceitar que as pessoas mudam, mas a base do que nos move permanece lá, intacta, à espera de ser orientada para um novo propósito. Mudar o padrão e construir um novo circuito neural exige um esforço consciente, lento e exaustivo. Resta-te decidir, leitor: ou continuas em sofrimento, à espera que o teu cérebro esqueça aquilo que ele foi biologicamente programado para recordar, ou vais assumir a responsabilidade de erguer-te e usar essa energia para construir o circuito do teu próprio futuro.

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