top of page

A Adolescência como a Última Esperança para a Mudança

A adolescência é marcada por diversos desafios sociais e psicológicos. O nosso corpo começa a mudar a velocidades exponenciais, e todo o nosso meio também. Os grupos passam a ter cada vez mais importância na vida dos adolescentes, existindo uma separação progressiva com o seio familiar. A adolescência tende a ser para muitos adultos uma fase glorificada — mas, verdade seja dita, não é. Como tudo na vida, passamos por bons e maus momentos em cada fase, mas a adolescência é, sem dúvida, a mais desafiante. Queremos ser adultos e independentes sem realmente o conseguirmos ser. Queremos ser reconhecidos, considerados especiais e valorizados aos olhos dos demais — mas dificilmente o somos.


Separamo-nos dos ideais e valores transmitidos em casa para começar a delinear os nossos próprios caminhos; questões sobre ética e moral começam a surgir com força. É também uma fase pautada pelos primeiros relacionamentos amorosos e sexuais. É aqui que aprendemos o que é ser homem ou mulher, algo que até à data não era muito relevante. As nossas diferenças e anormalidades são expostas e ridicularizadas, o que nos obriga a aprender a escondê-las. Construímos personagens e desenvolvemos cada vez mais a capacidade de representar. Afastamo-nos daquilo que somos para nos tornarmos naquilo que os outros esperam — ou pelo menos, somos implacavelmente pressionados a fazê-lo.


A adolescência, ao contrário da infância, é uma fase em que já não conseguimos chutar para canto a responsabilidade das nossas ações. Sabemos perfeitamente que tínhamos capacidade de decidir, e foram muitos os disparates que fizemos, alguns dos quais ainda podemos estar a pagar o preço atualmente. É nesta janela temporal que surgem os primeiros eventos verdadeiramente angustiantes e marcantes da nossa vida. Reside, portanto, nestas vivências um manancial de conhecimentos fundamentais para serem extraídos, analisados e integrados.


O Fim da Infância e a Abertura ao Mundo


A transição entre a segurança infantil e o abismo da adolescência marca o fim de uma era de relativa dependência e o despertar brutal para a complexidade do mundo exterior. A pré-adolescência, situada habitualmente entre os 11/12 e os 14 anos, funciona como o primeiro teste real de stress às fundações psicológicas construídas na infância. É neste período de rutura que as defesas, os estilos de apego e os modelos internalizados deixam de ser mera teoria e passam a enfrentar o fogo cruzado da realidade social.


Acreditava que, assim que saísse do primeiro ciclo, a exclusão e agressividade que tinha andado a viver acabariam por cessar. Porém, não foi o caso; apenas se intensificaram. Acreditei, na altura, que a resposta passava por responder e retaliar, o que apenas serviu para incentivar ainda mais a hostilidade alheia.


As minhas mudanças hormonais e fisiológicas vieram mais cedo do que a normalidade dos meus colegas. Tal implicou que era mais alto do que a média e com um porte físico proporcionalmente maior. Comecei a treinar musculação aos 11 anos por incentivo do meu pai, passando esta prática a ser um verdadeiro escape. Recordo-me perfeitamente de como tinha imensa dificuldade em fazer umas simples flexões ou exercícios de peso livre (o que, cientificamente, em nada afeta o crescimento das crianças ou adolescentes). Sempre tive gostos peculiares: aprendi sobre computadores, impressoras 3D, crochê, construção de sites, tive uma pequena empresa de vendas online e viciei-me nos cubos mágicos. Entre esses hobbies e o exercício físico, era assim que ocupava o meu tempo e mantinha o meu mundo a girar.


A infância foi uma fase em que aprendi cedo que as pessoas são egocêntricas e cruéis — não necessariamente por pura maldade, mas por mera natureza. E há algo que quero apontar de forma clara: as raparigas eram as piores. Os rapazes humilham e excluem por instinto de dominância e estatuto no grupo a que pertencem, recorrendo tipicamente à violência física. Com isso sempre lidei bem, apesar de magoar, claro. Mas as raparigas fazem-no de forma infinitamente mais subliminar. O sarcasmo e a humilhação subtil — disseminada através de boatos, por exemplo — são formas de agressão muito mais venenosas. Cresci num ambiente onde a figura materna era uma mulher estável, emocionalmente equilibrada, com pudor, valores, doce e dotada de uma dignidade inabalável. O meu pai sempre me ensinou a tratar bem as mulheres, a ter calma e, mesmo quando agredidos, a não responder e apenas ignorar. Logo, o contraste brutal entre a mulher que tinha em casa e as raparigas que encontrei na escola foi o que mais me custou a processar, gerando uma perniciosa perplexidade e incompreensão face às expectativas que trazia do meu padrão familiar.


Ser o "fora do grupo", solitário, excluído e humilhado, decerto não ajuda na hora de fazer declarações de afeto — algo que fiz e de cujo desfecho me lembro perfeitamente. Convem reforçar: as crianças e os adolescentes não são intrinsecamente maus ou cruéis; sentem-se é totalmente livres para expressar os seus impulsos e desejos sem o filtro da maturidade.


A Neurobiologia na Adolescência


Durante esta fase, o cérebro sofre uma reestruturação profunda marcada por uma assincronia implacável: o sistema límbico — epicentro das emoções, da busca de recompensa e da reatividade — amadurece muito antes do córtex pré-frontal, a região responsável pelo autocontrolo, planeamento e avaliação rigorosa de riscos. Este fosso neurológico explica cabalmente a volatilidade emocional, a impulsividade e a intensidade avassaladora com que os pré-adolescentes vivem os conflitos. Não se trata apenas de "teimosia", mas de uma tormenta química e estrutural que os deixa hipervulneráveis à rejeição.


O Amor Adolescente e o "Draft" da Intimidade


O amor na adolescência é frequentemente desvalorizado pelos adultos como um mero capricho passageiro, uma paixão ingénua e efémera que carece de "realidade". No entanto, do ponto de vista do desenvolvimento psicológico e neurobiológico, as primeiras experiências amorosas nesta fase funcionam como o verdadeiro laboratório da intimidade — o draft onde o indivíduo ensaia, pela primeira vez fora do círculo familiar, o que significa expor-se, pertencer e ser validado pelo outro.


Neste período, a atração e a paixão não cumprem apenas uma função reprodutiva ou recreativa; assumem um papel estrutural na descoberta do self através do olhar alheio. Como o córtex pré-frontal ainda está em plena maturação e o sistema límbico comanda a intensidade emocional, a experiência do amor adolescente é vivida com um dramatismo absoluto: a rejeição é sentida como uma ameaça existencial e a reciprocidade como a validação máxima da própria existência. É através deste espelho afetivo que o adolescente testa as suas defesas, redescobre os modelos de vinculação que trouxe da infância (repetindo padrões de segurança ou de evitação) e aprende, a custo, a fronteira ténue entre a fusão com o outro e a preservação da própria identidade.

Mais do que um treino simples para o romance adulto, o amor nesta fase é a ferramenta pela qual o jovem desloca a sua dependência emocional da família para o mundo exterior, descobrindo que é capaz de amar e ser aceite na sua individualidade crua. Para aprofundar este tema, recomendo a leitura do meu ensaio focado precisamente na importância da primeira vinculação amorosa significativa.

A título de contexto, recorro a um relato pessoal: a Alexandra (como lhe chamei no artigo) foi a primeira amiga e namorada que tive na vida. Ela amou-me por aquilo que eu era, com todas as minhas falhas, defeitos e vulnerabilidades visíveis. Não procurou um rapaz para cuidar, nem me via como inferior a ela. Pelo contrário, valorizou a minha sensibilidade e maturidade — mesmo ela sendo mais velha e tendo abismalmente mais experiência social do que eu. Ela era uma rapariga popular que ficou com o rapaz tímido e antissocial, quase como aquelas ficções românticas da Netflix. A verdade é que ela mudou o rumo da minha vida. Ganhei maturidade, mudei a forma como agia socialmente e, de tímido, passei a demonstrar confiança e a responder às ameaças. Aprendi a amar e até aos limites do amar; aquilo que eu achava que era normal em termos de demonstrações de afeto foi rapidamente rotulado por ela como lamechas. Isso partiu dela e, confesso, magoou-me e marcou-me. Porém, abriu-me os olhos para dinâmicas e normas sociais que desconhecia por completo. Desenvolvi com ela dinâmicas comportamentais e emocionais que mais tarde viriam a ser replicadas. Criei uma profunda vinculação com a Alexandra e uma lealdade crónica que se manteve inabalável até aos dias de hoje. Saí magoado desta relação amorosa, sim, mas saí com uma referência de mulher e moldes de amar totalmente novos e exteriores a casa para o resto da vida. A Alexandra marcou-me, mudou-me e, até hoje, estou-lhe extremamente grato. É a minha referência de mulher a seguir à minha mãe; a mulher especial não por ter sido a primeira namorada, mas porque foi a única que conheci que não procurou uma relação pelo valor utilitário ou pela capacidade do parceiro prover recursos, estatuto, conforto ou validação (o que eu praticamente não tinha para lhe dar), mas sim por respeitar e admirar verdadeiramente o parceiro. Ao longo da vida conhecemos e somos marcados por pessoas únicas; esta foi a minha.


Dito isto, os amores da adolescência não são passageiros: pelo contrário, podem ser dos mais especiais, formativos e marcantes de toda a nossa vida.

No entanto, a relação com a Alexandra não foi um mar de rosas nem perfeita, embora me tenha feito sentir livre, amado e especial. Houve um episódio concreto que me marcou no término, quando ela estava magoada e projetou essa dor ao rejeitar e desprezar a minha sensibilidade, gozando inclusive com o facto de eu estar a chorar. As pessoas choram; os homens têm receio de demonstrar vulnerabilidade. A Alexandra deu-me a liberdade para ser sensível, mas, no fim, senti-me humilhado por me expressar e chorar. Anos mais tarde, com a Ana, já condicionado por este primeiro evento romântico, passei dois anos e meio sem que ela me visse chorar uma única vez — até ao tal evento angustiante de rutura. A ideia de que a podia ter estado a magoar todo aquele tempo, aliada à sensação geral de humilhação, fez-me chorar naturalmente, algo a que ela mais tarde se limitou a responder que "já sabia que ia acontecer". Esta repetição de dois episódios angustiantes e similares em fases completamente distintas da minha vida provocou uma rutura total nas estruturas e estratégias que eu andara a construir durante anos.


A Desvinculação Parental e o Grupo de Pares


À medida que a infância cede espaço à pré-adolescência, o eixo de gravidade emocional desloca-se radicalmente dos pais para o grupo de amigos, que assume o papel de novo laboratório de identidade. O jovem precisa de cortar o cordão umbilical afetivo para testar quem é fora do olhar parental. Contudo, este processo traz um custo ancestral: o medo terrível da exclusão social. Para o cérebro em desenvolvimento, ser rejeitado pelos pares ativa exatamente os mesmos circuitos de sobrevivência e dor que o abandono físico, transformando a pertença num imperativo biológico.


Todos os adolescentes procuram pertencer a algo. Adaptam a fala, a roupa, os amigos e os gostos em função da aprovação e aceitação dos seus pares. Existe quem defenda que constroem aqui a sua verdadeira identidade; eu, pessoalmente, acredito que é exatamente aqui que começamos a afastar-nos dela. A identidade é formada junto dos pares, mas não só. Temos uma personalidade e uma identidade únicas, mas nesta fase estamos infinitamente mais focados em pertencer a algo do que em ser algo.

Eu próprio tive essa fase, entre os 13 e os 15 anos. Logo a seguir ao término da relação com a Alexandra — apesar de ainda continuar a gostar dela e a conviver com a mesma —, comecei subitamente a socializar muito. Esse relacionamento anterior trouxera-me alguma "popularidade" entre os pares, e comecei a formar várias relações e amizades. Foi uma fase de muitos disparates, mas também de muitas experiências e descobertas: tive vários encontros amorosos, alguns desgostos e muitas confusões entre grupos. Estava numa fase em que tentava desesperadamente ser um bad boy, enfiado em festas, álcool e encontros sucessivos. No entanto, apesar de receber a aprovação de muita gente, de já fazer parte de vários grupos e de supostamente ter dezenas de amigos e amigas, cada vez me sentia mais sozinho e desconectado de mim próprio. Estive com muitas raparigas nessa altura, é um facto; contudo, a única de quem gostava verdadeiramente continuava a ser a Alexandra. Quanto mais rodeado de gente estava, mais saudades dela tinha. Continuávamos a dar-nos, e ela desaprovava vivamente toda aquela personagem de playboy. Detestava-a porque me conhecia de verdade, e ao pé dela era impossível manter aquela máscara. Estar com ela fazia-me falta porque, para além dos sentimentos que nutria, era com ela e apenas com ela que me sentia livre para ser quem realmente era: podia ser mais orgulhoso, mas continuava a ser o mesmo rapaz sensível que ela conhecera.


Ela desaprovava a maioria dos meus relacionamentos e, por mais que a tentasse reconquistar, não obtinha qualquer sucesso. Entre as festas, as bebedeiras, os exageros, as confusões e os supostos amigos, cada vez me sentia mais distante, mais melancólico e com a sensação esmagadora de voltar a ser aquela criança indefesa e impotente da primária. A minha relação com os meus pais também foi afetada por estas dinâmicas e confusões fora de casa, o que apenas agravou a minha sensação de isolamento. Na altura, dizia a mim mesmo que nunca me sentira tão sozinho, apesar de estar rodeado de gente. Estava rodeado, mas a única pessoa que queria por perto estava distante.

A Crise de Identidade e a Construção das Máscaras Definitivas

Com a consolidação do pensamento abstrato e hipotético-dedutivo, o indivíduo deixa de olhar para o mundo de forma puramente concreta e começa a questionar tudo. É nesta fase que se experimentam personas e papéis sociais na tentativa de encontrar a melhor forma de sobreviver no meio social. Na ausência de um grupo de integração natural — como sucedeu na minha própria trajetória —, esta busca pode desviar-se para uma autonomia precoce, forçando a construção duma identidade estribada em guiões internos e racionais, moldada muito mais pela solidão do que pela validação coletiva.

Após o divórcio dos meus pais, quando tinha 15 anos, entre o 9.º e o 10.º ano, sucedeu-se uma fase mais prolongada de letargia e angústia. Era uma fase em que começava a questionar tudo na minha vida e o que até à data tinha andado a fazer. Uma certeza eu tinha: as estratégias que andava a utilizar não estavam a resultar; algo tinha de mudar. E foi no secundário que comecei drasticamente a mudar de rumo. A Alexandra tinha mudado de cidade e, nessa altura, tínhamos parado de falar. Estava numa turma nova e, ainda que tentasse socializar, rapidamente identifiquei os mesmos padrões que estava farto de observar na fase anterior da minha vida. Queria algo diferente, mas tinha de me adaptar socialmente: não podia voltar a ser o rapaz timorato e humilhado, mas também não podia ser o playboy alternativo e revoltado com o mundo.


Aproveitei o meu tempo livre e comecei a estudar vorazmente; e como eu li... li sobre tudo, mas especialmente sobre psicologia. Foi por volta dos 16 anos, com o eclodir da pandemia, que o isolamento se intensificou naturalmente. Não tinha amigos dentro ou fora da turma, mas alguém me despertou o interesse desde o primeiro dia. Foi aí que começou uma relação platónica que durou sensivelmente três anos. O comportamento dela — chamemos-lhe Ana — era bastante ambivalente, alternando entre uma proximidade e um afeto extremo (onde me sentia o homem mais especial do mundo) e um total desprezo e frieza (o que me deixava profundamente confuso, irritado, estúpido e melancólico). Toda esta ambiguidade aguçou o meu interesse pela psicologia, um foco e paixão que se intensificaram pela necessidade premente de compreender o que sentia naquela relação, sobre tudo, mas especialmente sobre ela. Compreendê-la era, no fundo, compreender-me a mim mesmo.


Como o meu tempo era despendido essencialmente a amá-la — algo que na altura, durante esses três anos, nunca assumi nem para mim próprio —, a estudar, ler, treinar, comer de forma regrada e vigiar o sono, passava inevitavelmente muito tempo sozinho. Isso aproximou-me da minha verdadeira identidade. Deixei de me vestir para me encaixar ou contrair perante os outros e passei a vestir aquilo de que gostava e com que me identificava. Pintámos uma imagem de racionalidade, frieza, intelectualidade e secretismo diante dos meus colegas, o que me levava a vestir de forma formal, a andar sempre com um livro debaixo do braço, a tirar notas altas e a exibir um conhecimento excessivo sobre tudo. Era tudo parte de quem eu era, mas decidi expor apenas as facetas que melhor se enquadravam nos meus objetivos sociais. Não queria ser rejeitado, mas também não me queria sentir vulnerável; criei, portanto, uma distância excessiva de tudo e de todos, refugiando-me ferozmente no conhecimento. Não estava lá para fazer amigos e exigia respeito — o que me deram, mas que não me trouxe qualquer prazer genuíno.


Esta personagem escondia por trás uma imensa solidão e melancolia. Não pedia ajuda porque, verdade seja dita, ninguém queria saber. E ninguém quis saber porque eu próprio me isolei, mas também porque a minha personalidade continuava a ser manifestamente atípica.


A relação com a Ana não era garantia alguma. Não podia contar com ela porque, por muito que gostasse dela, a sua disponibilidade e comportamento eram totalmente imprevisíveis. Eu conseguia decifrar o que ela sentia e, melhor ainda, identificá-lo com precisão, mas em momento algum conseguia antever quando passaria a desprezar-me ou a dar-me afeto. Tentar ignorá-la, expressar que estava magoado ou demonstrar-me chateado de nada servia; ela sabia exatamente como me reconquistar e ter de volta. A Ana estava numa fase sensível e delicada da sua vida, mas todo aquele isolamento e frieza exterior colocaram-me totalmente vulnerável perante ela. Ela era a imprevisibilidade na minha vida, aquilo que me dava emoção e ao mesmo tempo me descontrolava. Ela sabia que eu estava atraído por ela, sabia que a amava e que tinha um foco obsessivo na sua pessoa. Eu não tinha quaisquer amigos, grupos ou saídas fora da escola; era apenas ela, unicamente ela. E ela gostava disso. Gostava da atenção, gostava da ideia de ninguém partilhar tempo comigo nem ter a minha atenção — frases como "não somos amigos", ditas quando colegas se aproximavam com demasiada intimidade, eram o reflexo disso —, mas o contraste entre os outros e eu era cristalino. Toda a gente sabia que aquele rapaz gostava daquela rapariga, embora a imagem que os outros faziam de mim estivesse toldada pelos boatos da fase "playboy", que nada tinham a ver com a realidade do meu comportamento. A Ana também não era muito social, mantendo apenas o seu pequeno grupo de amigas dentro da turma. Este fenómeno de exclusividade unilateral enchia-lhe o ego, algo que ela garantiu nunca perder, o que não era difícil face à minha total vulnerabilidade social na altura.


Dito isto, esta foi a fase em que aprendi verdadeiramente a representar e a colocar as máscaras necessárias de acordo com os contextos sociais. Aprendi, contudo, que tentar proteger-me de sentir apenas me fazia sentir com ainda mais intensidade. No início negava a mim próprio e à própria Ana que gostava dela; no final dos três anos já lhe escrevia cartas com textos intermináveis, expressando da forma mais racional e formal que encontrava o óbvio: amava-a. O irónico — e embora não guarde qualquer rancor para com a Ana — é que procurei desesperadamente ser respeitado nesta fase, mas foram demasiadas as vezes em que ela não me respeitou; procurei não ser humilhado nem rejeitado, o que também acabei por experienciar. Ela não era má pessoa, nem tinha qualquer crueldade intrínseca contra mim; simplesmente estava a lidar com os seus próprios demónios, e eu acabei por funcionar como um gerador de conflito para ela, ao mesmo tempo que era o porto seguro onde encontrava validação. A ambivalência entre ser tudo e ser nada refletia apenas os seus próprios estados internos de angústia.

Durante muito tempo senti-me profundamente envergonhado e humilhado pelo facto de a Ana me ter manipulado com tanta facilidade. Contudo, olhando para trás, este desgosto amoroso e esta relação trouxeram-me tanto conhecimento, equilíbrio emocional e maturidade relacional que só posso sentir-me imensamente grato por a ter conhecido. A Ana era uma rapariga instável que cresceu, ganhou maturidade, sempre foi inteligente e tornou-se uma mulher capaz ao longo dos anos. Tinha um medo crónico de se apegar — o que explica em parte a nossa dinâmica —, mas resolveu tudo isso mais tarde. Não tenho tido praticamente contacto com ela ao longo dos anos, mas sei que está feliz, madura e a alcançar tudo o que sempre mereceu. Nutro verdadeira admiração pela mulher em que se transformou e sinto-me orgulhoso por saber que, em alguma medida, esse sucesso também se deveu ao amor genuíno que recebeu de mim.

Apenas lamento a que ponto me submeti nesta relação, pois existiram momentos lamentáveis em que me humilhei de forma genuína. Confiava nela e expressava-me através de longas cartas, mas nunca senti por parte dela uma preocupação genuína em fazer-me sentir compreendido. Isso impedia-me de ter a validação e a segurança necessárias para me expressar emocionalmente — daí o refúgio excessivo na escrita de textos. A única vez que chorei à frente dela foi num momento de rutura ensaiado, como forma de ela projetar as suas próprias inseguranças e medos em cima de mim, invertendo a responsabilidade dos mesmos.


Dediquei quatro anos da minha vida a esta relação platónica — uma relação que existiu apenas nesta dinâmica ambivalente entre afeto e descarte, onde a intimidade se cingiu a ser o seu confidente e onde as declarações, provocações e seduções serviram, possivelmente, apenas para manter a minha devoção e lealdade cega. E fui-lhe leal. Não tinha amigos nem amigas, e quando as poucas surgiam, eram rapidamente desencorajadas por ela. A Ana nunca me prendeu fisicamente a nada; fui eu que me prendi a um desejo e a uma paixão que vivia sobretudo no plano das ideias, acreditando piamente que ela era "a tal". E tratei-a como tal durante todo esse tempo. Por vezes olho para trás e sinto-me patético; ao mesmo tempo, fico orgulhoso por ter sido capaz de transitar do playboy imaturo para um homem que realmente se dedicou àquela que acreditava que seria a sua mulher. Inclusive, apesar de toda a fase de playboy e das inúmeras experiências sexuais, deixei a questão da consumação do ato tradicional estritamente para a mulher que amava — e, na altura, acreditei firmemente que seria a Ana, pois há muito que aceitara que não seria a Alexandra.

Em suma, foi uma fase de transição brutal, onde passei de estruturas mentais, identitárias e emocionais imaturas e precoces para começar a moldar-me como um homem madurado e formado. Foi um período pautado por muito questionamento, representação social e por uma vinculação amorosa angustiante e profundamente ambivalente.


O "Draft" do Amor (A Repetição do Padrão)


A pré-adolescência e a adolescência inicial trazem o despertar do desejo, da ambivalência afetiva e os primeiros ensaios de relacionalidade — o famoso draft da intimidade que antecede os relacionamentos adultos. É aqui que os traumas e as inseguranças das vinculações primárias se manifestam na forma como o jovem ousa (ou recua) ao expor-se ao outro. A forma como sobrevivemos a estes primeiros abalos amorosos e sociais dita, em grande medida, a nossa capacidade futura de nos vulnerabilizarmos sem destruir o próprio self.


A relação com a Alexandra não foi pacífica nem perfeita, mas senti-me livre, amado e especial. Houve, no entanto, aquele episódio marcante no término em que ela, magoada, projetou a sua dor rejeitando e desprezando a minha sensibilidade, gozando com o facto de eu estar a chorar. As pessoas choram; os homens têm receio de demonstrar vulnerabilidade. A Alexandra dera-me a liberdade para ser sensível, mas no fim fez-me sentir humilhado por o ser. Anos mais tarde, com a Ana, já condicionado por este primeiro trauma romântico, passei dois anos e meio sem derramar uma lágrima, até ao tal evento angustiante de rutura. A ideia de que a podia ter estado a magoar e a desconfortar todo aquele tempo, juntamente com a humilhação geral, fez-me chorar de forma inevitável — algo a que ela respondeu friamente com a frase de que já sabia que isso ia acontecer. Esta repetição de dois episódios angustiantes e estruturalmente similares em fases completamente distintas da minha vida provocou uma rutura total nas defesas e estratégias que eu passara anos a construir.


Conclusão


A adolescência não deve ser encarada como uma mera patologia ou um transitoriamente incómodo a despachar, mas sim como o caos necessário para a desestruturação do velho self infantil e a construção do adulto consciente. Sobreviver a esta travessia implica aceitar as cicatrizes deixadas pela inadaptação e transformar o sofrimento social num motor de autoconhecimento.


Demorei muito tempo a integrar o que aconteceu na minha adolescência, a aceitar as falhas, os erros e os disparates que vivi. Desfazer-se das angústias amorosas foi, contudo, a tarefa mais difícil. A Alexandra não terminou; mudou de forma a relação e o sentimento, mantendo-se vivo até aos dias de hoje um profundo sentimento de admiração e gratidão. Com a Ana, no entanto, custou-me imenso seguir em frente. A relação terminou de um dia para o outro: o secundário acabou e, nesse exato dia, ela deixou de me falar. Foi abrupto, sem explicações, sem um adeus, sem nada. Apenas meses mais tarde a voltei a ver, numa interação fria e superficial que só conseguiu deixar-me ainda mais confuso. Era a mesma rapariga que, dias antes do fim do secundário, me dizia o quão especial eu era, segurava-me a mão e olhava-me nos olhos. Toda essa confusão, ambiguidade e a incerteza absoluta em relação ao meu futuro académico e profissional deram azos a uma fase negra na minha vida, onde me senti isolado, impotente e melancólico como nunca antes.


Ser adolescente é exatamente isto: viver tudo intensamente. É fundamental compreendermos o que sentimos nesta fase e integrar essas vivências. Sentir vergonha pelo que fizemos ou pelo que nos aconteceu só servirá para nos assombrar no presente. É na adolescência que se consolidam todos os padrões que começaram a desenhar-se na infância. Esta foi a última grande janela temporal em que tivemos a capacidade biológica e plástica de moldar verdadeiramente a nossa personalidade e os nossos padrões emocionais e comportamentais. A seguir à adolescência, tudo se torna mais intrincado e difícil, embora não seja impossível. Não nos curaremos magicamente das patologias aqui desenvolvidas; apenas as iremos tratar e moldar à luz daquilo que nos acrescenta valor. A adolescência é, em última análise, uma fase sem retorno.





Fontes Científicas de Referência:

  • Steinberg, L. (2014). Age of Opportunity: Lessons from the New Science of Adolescence. Houghton Mifflin Harcourt.

  • Casey, B. J., Jones, R. M., & Hare, T. A. (2008). The adolescent brain. Annals of the New York Academy of Sciences.

  • Erikson, E. H. (1968). Identity: Youth and Crisis. W. W. Norton & Company.

  • Brown, B. B. (2004). Adolescents' relationships with peers. In R. M. Lerner & L. Steinberg (Eds.), Handbook of Adolescent Psychology.

  • Blakemore, S-J. (2018). Inventing Ourselves: The Secret Life of the Teenage Brain. PublicAffairs.

  • Bowlby, J. (1982). Attachment and Loss: Vol. 1. Attachment (2nd ed.). Basic Books. (A base teórica essencial para compreender como os modelos de vinculação infantil moldam a capacidade de amar e intimar na adolescência).

  • Collins, W. A. (2003). More than a myth: The developmental significance of romantic relationships during adolescence. Journal of Research on Adolescence, 13(1), 1–24. (Estudo fundamental que valida a importância crucial dos romances adolescentes para o desenvolvimento psicossocial e a autonomia).

Comentários


bottom of page