Sentir o Filme: O Porquê de um Cinema em Casa
- Miguel Silverio
- 20 de jun.
- 7 min de leitura
Ver um filme é algo tão simples e corriqueiro. Para quê complicar, não é verdade? Bem, a verdade é que a maioria das pessoas apenas vê um filme. Porém, os filmes não foram feitos para ser vistos, mas sim para serem sentidos.
Um filme pode passar de um simples visualizar de um conjunto de imagens que formam uma narrativa com uns sons de fundo, para uma verdadeira experiência sensorial. Algo que nos envolve, nos faz abstrair dos problemas, do cansaço e até do sofrimento.
Ir ao cinema é algo que há muito deixou de ser agradável. As cadeiras são desconfortáveis, há crianças a correr e a fazer barulho. O som está desregulado — normalmente, demasiado alto e estridente. A imagem já não é nada de especial. Para agravar, após a pandemia, as exibidoras deixaram inclusivamente de fazer intervalos — o que, num filme de três horas, não é lá muito confortável.
Os dados oficiais não mentem: fora os anos atípicos da pandemia, o mercado tem registado os números mais baixos de espectadores em salas comerciais de todo o século XXI. Na Europa e nos Estados Unidos, o cenário de fadiga estrutural é idêntico. Não há dúvidas: ir ao cinema está a tornar-se algo cada vez menos comum, sendo um mercado em claro declínio e com cada vez menos sustentabilidade económica.
Em Portugal, a crise é severa; complexos inteiros têm fechado as portas por falta de rentabilidade.Existem salas de cinema abertas? Claro. Porém, foram construídas e atualizadas pela última vez há quantos anos, ou até mesmo décadas? Estima-se que não existam mais de dez salas de cinema em Portugal equipadas com o formato de som Dolby Atmos — que é um dos padrões de áudio tridimensional mais importantes da indústria. Este formato surgiu no mercado profissional por volta de 2012, com o filme Brave da Pixar. Passada bem mais de uma década, termos apenas cerca de dez salas comerciais capazes de o reproduzir no país diz muito sobre o desinvestimento do setor.
Outro fenómeno que acelerou o declínio das salas foi o streaming. Além da conveniência, da praticidade e do custo, veio o fenómeno das séries de alto orçamento. O consumo de séries ultrapassa hoje o de filmes nas novas gerações e este conteúdo não está disponível, naturalmente, nos cinemas.
Dito isto, compreendemos que é cada vez mais comum vermos conteúdo audiovisual em casa e não nos cinemas. O problema é que não o fazemos da forma que a indústria cinematográfica planeou. Uma produção cinematográfica é absurdamente cara, existindo produções a custar centenas de milhões de euros. Grande parte desse custo está atribuída à captação, edição e masterização audiovisual. A qualidade técnica de produção, tanto de vídeo como de áudio, é extraordinária.
E nós chegamos a casa e colocamos o filme a dar numa televisão comum, ou até mesmo no telemóvel ou computador — desperdiçando toda a riqueza que a obra tem para oferecer. Os filmes foram feitos para ser uma experiência, um momento intenso e sensorialmente estimulante. Não uma mera distração de fundo.
Os Três Cenários do Cinema Residencial
Ter um cinema em casa pressupõe, idealmente, uma sala ou divisão dedicada para esse efeito. Sei perfeitamente que tal é uma realidade apenas para um nicho muito pequeno da população. Sou verdadeiramente privilegiado por ter tido a possibilidade de o conseguir fazer, admito. Porém, a realidade é que a maioria das pessoas tem um local em casa onde já vê os seus filmes — normalmente o tradicional “sítio da televisão”. E a verdade é que, mesmo neste cenário comum, já é possível replicar grande parte da experiência de uma sala dedicada.
Podemos estruturar o cinema em casa através de três cenários possíveis:
O Espaço Convencional: A tradicional sala de estar adaptada.
O Quarto Otimizado: Um quarto adaptado para o efeito, mantendo naturalmente as suas funções biográficas (cama, roupeiros, secretária).
A Sala Dedicada: O estado da arte. Uma sala fechada de raiz, sem luz exterior e com tratamento cromático escuro (sendo o preto a preferência absoluta).
Dedicarei um guia prático a cada um destes três cenários, num artigo específico para cada um deles. Este primeiro artigo visa contextualizar o porquê desta transição. Os conceitos técnicos básicos sobre áudio e vídeo (como canais de som, equipamentos, sistemas, posicionamento e calibração) terão também um artigo inteiramente dedicado. Daqui para a frente, sempre que falar em cinema em casa, refiro-me a qualquer um destes três cenários.
Resta a pergunta que todas as pessoas que acompanharam a minha jornada me fizeram: Qual a necessidade de ter um cinema em casa?
A resposta que dou é sempre a mesma: uma vez que o experienciares, nunca mais vais querer voltar atrás. A qualidade sonora e visual eleva a obra a outro patamar. Ouvimos e vemos pormenores que seríamos incapazes de detetar de outro modo. Quantas dezenas de filmes e séries voltei a rever e fiquei fascinado com tudo o que me tinha escapado no passado? Não houve uma única pessoa que tenha entrado no meu espaço e testado o sistema que não tenha ficado impressionada.
A justificativa é simples: já que vamos gastar o nosso tempo a ver uma obra, que o façamos da forma mais prazerosa possível e o mais próximo daquilo que os estúdios se dedicaram a entregar. Houve centenas de profissionais e milhões de euros investidos para conceber aquele áudio e vídeo; não fará sentido honrar esse trabalho na hora da contemplação?
Cinema é essencialmente a simbiose entre o áudio e o vídeo. Porém, não nos podemos esquecer do terceiro pilar fundamental: o conforto. A experiência só é totalmente relaxante e imersiva se estivermos instalados numa plataforma confortável — seja um sofá, uma cama ou uma poltrona ergonómica —, sem distrações, luzes parasitas ou ruídos que nos rodeiem. Sentir o filme implica estarmos concentrados e predispostos para ele.
Um Relato: O Restauro e a Descoberta da Alta-Fidelidade
A minha paixão pelo cinema começou através do mundo da alta-fidelidade (Hi-Fi). Os sistemas de alta-fidelidade são sistemas de som dedicados à reprodução musical da forma mais fidedigna e próxima possível da gravação original em estúdio. Se estamos a ouvir uma guitarra, a ideia é que o som que sai das colunas seja exatamente o mesmo som mecânico que a guitarra faria na nossa frente.
Os meus pais são da geração em que a música era consumida de forma totalmente analógica — o clássico vinil. O meu pai sempre teve uma ligação forte à música e, por isso, cresci a ouvir os álbuns de que ele gostava nesses sistemas dedicados. Mais tarde, os filmes que via em criança na televisão já passavam por um sistema de som surround (som envolvente).
Anos mais tarde, quando os meus pais se separaram e passei a viver alternadamente nas suas respetivas casas, a minha mãe, por uma questão de praticidade, optou por ver televisão apenas com o som embutido do próprio ecrã. Com o passar do tempo, ao rever diversos filmes com ela, comecei a notar um fosso enorme entre a experiência imersiva que tinha na minha memória e aquela que estava a ter naquele momento. Foi aí que comecei, gradualmente, a tentar replicar o que estive habituado a ouvir.
A minha mãe tinha guardadas umas colunas antigas cujos altifalantes já estavam degradados pelo tempo. Encontrei uma empresa especializada que os restaurou de raiz, comprei um amplificador (aparelho necessário para fazer a amplificação do sinal elétrico que vem da televisão, caso esta seja a fonte do sinal de áudio, de forma a ser reproduzível pelas colunas) e montei o sistema. A diferença foi brutal. O som passou a preencher o espaço, as vozes ganharam uma nitidez e o áudio começou a ser novamente sentido e não apenas ouvido.
Contentei-me com este sistema de duas colunas durante algum tempo. Mais tarde, em casa do meu pai, descobri outro par de colunas da mesma marca com o mesmo problema nos altifalantes e um amplificador antigo avariado. Mandei restaurar ambos e montei esse sistema no meu quarto, na altura estritamente dedicado à audição de música.
O grande salto deu-se mais tarde, quando comecei a namorar. Ambos partilhávamos um gosto profundo por cinema. Ela adorava ir às salas e eu próprio, no ano antes de a conhecer, ia ao cinema sozinho quase semanalmente. Passámos a ir juntos com frequência. Por diversas razões, em especial o desenvolvimento da sua doença, passámos a passar cada vez mais tempo juntos em casa, onde me foi possível dar-lhe um maior auxílio, conforto e acompanhamento.
Começámos por ver filmes no ecrã do computador no meu quarto, até que tive a ideia de pegar num projetor portátil que tinha, montar uma estante por trás da cabeceira da cama e instalar uma tela de projeção retrátil à frente. Devido ao layout do meu quarto — onde precisava de salvaguardar a secretária, as estantes de livros, os roupeiros embutidos e os acessos às janelas e à varanda —, a projeção era a única solução viável.
Lembro-me como se fosse hoje do dia em que a tela chegou. Montámo-la, apagámos as luzes e ligámos o projetor. Apesar de a imagem não ter grande qualidade devido à baixa resolução do aparelho — o que deixava as legendas visivelmente desfocadas —, fiquei completamente apaixonado pela experiência.
Ela, ao contrário de mim, não era dada a preciosismos técnicos; estava confortável, feliz e satisfeita com o que tínhamos no quarto. Porém, eu não,
Como sucedeu em diversas outras áreas da minha vida, fiquei fascinado e obsessivamente focado em compreender a fundo os sistemas de cinema residenciais.
Estudei a fundo o mercado, as marcas e a sua história, o funcionamento dos processadores, a eletrónica de amplificação e toda a física necessária para adaptar espaços — desde o isolamento acústico das paredes e a escolha de cores até à instalação elétrica dedicada, que é o coração invisível de qualquer sistema sério.
Foi com esta companheira que fui a um showroom em Lisboa experienciar uma sala de cinema residencial planeada profissionalmente pela primeira vez. Foi uma sensação inexplicável, mas desanimadora ao mesmo tempo. Aquela " simples sala", como lhe chamou o vendedor, ultrapassava os 50 mil euros apenas em equipamentos, sem contar com a remodelação do espaço. Estava completamente fora do meu orçamento, naturalmente.
Mas foi precisamente aí que esta minha paixão começou.
Demorei cerca de um ano e meio até chegar a um ponto onde fiquei totalmente satisfeito com o sistema e espaço que construí. O projeto que começou com um projetor chinês e uma simples tela retrátil num quarto terminou na construção de uma sala de cinema totalmente dedicada, planeada e edificada de raiz, com multiplas colunas, e uma tela com mais de 150 polegadas.
Um cinema em casa permite transformar o ato mundano de ver televisão numa experiência imersiva inesquecível.
Não são necessários grandes argumentos para justificar o valor de acrescentarmos um cinema às nossas vidas.
Resta apenas lançar uma questão ao leitor: se a tecnologia permite-lhe trazer a experiência audiovisual completa para dentro da sua casa, por que razão haveria de se contentar com menos?
O próximo artigo, será dedicado aos conceitos básicos por detrás de um cinema residencial.

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